“A surdez no confronto com Deus é o drama da nossa época”

MÁRIO RAMOS RIBEIRO mramosribeiro@uol.com.br
“Sua cura não é uma linha reta. Você deve esperar empecilhos e recuos. Quando, de repente, tudo que você imaginou ter conseguido parece perder-se, não se desespere. Não diga para si mesmo: “Tudo está perdido. Tenho de recomeçar tudo novamente”. Isso não é verdade. O que você conquistou foi conquistado. Por vezes, pequenas coisas farão você perder o chão por um instante. A fadiga, uma observação aparentemente fria, a incapacidade de alguém ouvi-lo, o esquecimento, que parece ser rejeição...todas essas coisas quando vêm de uma vez, podem levá-lo a sentir-se como se estivesse de volta ao ponto de partida. Contudo, evite sair da estrada, mesmo por um tempo. Mas, se sair, saiba: ao voltar para a estrada, você volta para o lugar onde estava quando a deixou, não ao ponto de partida.”
“É importante não desistir quando você sente que deixou de avançar. Tente voltar imediatamente para o lugar firme que existe em você. Do contrário, esses momentos começam a conectar-se com momentos semelhantes e, juntos, tornam-se poderosos o suficiente para lançá-lo para fora da estrada. Tente ficar atento às distrações aparentemente inofensivas. É mais fácil voltar para a estrada quando se está no acostamento do que quando já se atravessou todo o caminho na direção de um brejo.” (Henri J. M. Nouwen, Meditações, p. 52. Ed. Habacuc).
Há muito, ainda quando era Cardeal, o Papa Bento XVI vem nos alertando para a necessidade de se buscar a alma do mundo. Desde que iniciou a sua atual visita à Alemanha, o Papa voltou a insistir, com pequenas variações, no mesmo tema, como quem toca ao piano um rondó de Bach.
A alma do mundo, de que nos fala Bento XVI é sem sombra de dúvida o Espírito Santo, afastado de nossos corações em nome de uma liberdade, cujo cânone é o individualismo exacerbado e indiferente a Deus. Sem o “doce hóspede de nossa alma” não poderemos encontrar “o lugar firme que existe em nós”, como nos aconselha o padre Henri Nouwen, e assim desanimaremos ou pior desistiremos de Deus e de nós mesmos quando o desencanto com as dificuldades da vida nos atingir. Para que lugar firme poderemos correr se já expulsamos Deus da nossa cultura?
A civilização do amor com a qual sonhava o Papa Paulo VI está dando lugar “a uma confusa ideologia da liberdade que nos conduz a um dogmatismo cada vez mais hostil à própria liberdade”, (Bento XVI, “A Europa na Crise das Culturas”, Cantagalli, Siena, 2005).
O neo-iluminismo ideológico tem produzido sem cessar a dessacralização do homem, e disseminando a idéia de que o cristianismo representa uma oposição à ciência - como se esta não fosse também um dom de Deus e, portanto, não devesse estar também submetida à “lei natural”, que o Espírito Santo sopra nos nossos corações.
“A surdez no confronto com Deus é o drama da nossa época” disse Bento XVI na sua homilia de 11 de Setembro, celebrada em Mônaco da Baviera, em frente ao crucifixo mais antigo do mundo, datado do século IX, e testemunho das antigas raízes cristãs na Baviera.
Não encontraremos a nós mesmos fora de Deus. Longe da alma do mundo não saberemos retornar para o lugar firme que existe dentro dos nossos corações.
O autor é economista
|