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ARQUIDIOCESE - Nosso anjo da guarda
Ivens Coimbra Brandão
Decorria o ano de 1960, quando o então presidente Jânio Quadros iniciava seu mandato. Empunhando o slogan ?o homem da vassoura?, foi eleito com uma votação recorde, prometendo eliminar a corrupção. Seu jeito excêntrico e desafiador o levaram a proibir brigas de galo e a condecorar Che Guevara. Sua liderança acabou esgarçada pelos extremos que ele mesmo criou, renunciando em menos de um ano. Foi neste contexto político, que o personagem da história de hoje dava os primeiros passos de sua vida profissional, aceitando a oportunidade de trabalho na então longínqua Tucuruí, distando 36 horas de Belém por via fluvial. Na segunda vez que para lá viajou, foi acompanhado da esposa, mas sempre teve a proteção do seu anjo da guarda.
Para quem estava habituado a viver em cidade grande, o desconforto começava na viagem, que se fazia em barcos motorizados, ou no único navio, um ?gaiola? antigo, que diziam ter as chapas do casco com vários remendos de concreto. Dispunha de apenas quatro camarotes, sendo os demais passageiros acomodados em redes, no passadiço. No auge do verão, vencer o trecho à altura de ?Nazaré dos patos? exigia do piloto conhecimento e perícia, ao manobrar com ajuda de bóias que balizavam o percurso. Chegando a Tucuruí, que era fim de linha, o comandante permanecia a bordo, receoso de sofrer represálias, considerados desentendimentos havidos com pessoas influentes na cidade.
Aquele jovem engenheiro, ao assumir suas funções na Estrada de Ferro Tocantins, percebeu que o ambiente pacato da cidade era só aparente. Na verdade, ali fervilhavam interesses políticos associados ao poder de pequenos grupos, em uma cidade em que apenas cerca de 30% dos habitantes havia ali nascido. O neo-residente era, portanto, mais um forasteiro, que no arroubo dos seus 26 anos, tratou de portar um revólver, requisitado à própria estrada de ferro. Passada uma semana, concluiu não haver necessidade de andar armado. Mas dois dias depois, logo pela manhã, foi recebido pelo mestre-de-obras, que recomendava cuidado, pois um dos operários ?não estava a gostar do seu jeito?. Voltando a portar a arma na cintura, as ameaças cessaram...
Enquanto o ?valente? engenheiro desempenhava suas funções fora, a jovem esposa tratava dos afazeres domésticos. Habitavam uma casa com certo conforto diante a realidade local. Mas não havia geladeira, os alimentos eram preparados em fogão a carvão, daqueles feitos em latas de querosene, dispondo na parte superior do suporte de barro para o carvão, havendo embaixo uma abertura, para receber o fluxo de ar do agitar de abano da cozinheira. Passados 44 anos, o casal lembra aqueles tempos vividos, quando a ?valentia? do marido se encontrava com a dedicação da esposa, que nada reclamava dos encargos domésticos, mesmo trazendo ao redor das unhas as marcas do cozinhar em um fogão a carvão.
A Estrada de Ferro Tocantins foi construída para contornar o trecho encachoeirado do Rio Tocantins. Eram 118 quilômetros de ferrovia, de Tucuruí a Jatobal, permitindo o transporte do que era extraído ao longo das margens do Alto-Tocantins e do Alto-Araguaia, destacando-se madeiras nobres como o mogno. Assim como as estradas de ferro Madeira Mamoré e Bragança, a Estrada de Ferro Tocantins ficou isolada de um sistema nacional até hoje não concretizado.
Lá chegando, nosso personagem constatou que a estrada estava decadente. Designado para uma tarefa ao longo da linha, partiu de Tucuruí em uma litorina, espécie de microônibus sobre trilhos. Tinha como companheiros de viagem dois trabalhadores que o ajudariam no serviço, o prefeito de Tucuruí e um irmão, cujo destino era Marabá, um soldado da PM, e seis professoras que iam atender pequenas escolas ao longo da linha. Na primeira parada, povoado de Breu Branco, o PM desentendeu-se com o irmão do prefeito, os dois sacando seus revólveres, tendo como cenário um descampado em frente ao casario da vila. O prefeito também sacou sua arma, se postando ao lado do irmão, inibindo o soldado a atirar.
Refeito do susto, o engenheiro convidou o prefeito e o irmão para se dirigirem à pequena estação, temerário que era o PM continuar viagem no mesmo veículo. Comprometeu-se então, de convencer o soldado a permanecer na localidade, sob promessa de que mandaria resgatá-lo ainda naquele dia. Para tanto, teria que dirigir-se ao militar, que em atitude hostil, aguardava uma solução. Teria a percorrer cerca de cem metros, até que se aproximasse o bastante para usar a palavra. Caminhando com o olhar fixo nos movimentos do soldado, foram momentos que mesclaram medo e confiança, pois o PM não sabia sua intenção. Chegando perto, arriscou um olhar para sua esquerda, quando viu estar sendo acompanhado pelo seu ?anjo da guarda?, na pessoa de um dos trabalhadores que, empunhando uma espingarda, dava-lhe proteção.
Assim como nosso personagem, leitores há que já correram riscos, viveram dificuldades, os mais atentos reconhecendo a presença do seu anjo da guarda, que é identificado na medida em que se percorre o caminho que leva à conversão.
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