ATUALIDADES

Vida consagrada faz a felicidade de irmã Marília

Marília Therezinha dos Santos Menezes tem 72 anos de idade e 48 de vida consagrada na Congregação das Adoradoras do Preciosíssimo Sangue. Sexta filha do casal Bruno e Francisca Menezes (o poeta e escritor paraense), Marília decidiu se tornar missionária após ouvir uma pregação do bispo do Xingu Eurico Kräutler, na Capela de São João, na Cidade Velha. O prelado falou sobre o apostolado realizado pelos missionários do Preciosíssimo Sangue na região. Foi um chamado irresistível para a menina Marília, de 14 anos, que integrava a Cruzada Eucarística (Cruzadinha). Após missões no Pará e Amazonas, e servir como Conselheira Geral da congregação em Roma, o que a fez visitar comunidades da América Latina, África e Europa, irmã Marília, que trabalhou no serviço aos pobres, em escolas e em meios de comunicação social, está de volta a Belém, para reviver mais um Círio ao lado dos irmãos Monsenhor Geraldo, Maria Ruth e Maria de Belém, que sempre incentivaram a sua escolha. ?É bom publicar as obras do Senhor?, recordou a sorridente consagrada ao repórter Luiz Sabaa, ao concluir a entrevista realizada no casarão da família, na rua João Diogo.

Irmã Marília, como foi o seu despertar vocacional?
          Eu sempre fui de uma família católica, pertenci à Cruzadinha Eucarística de São João desde os meus 7 anos de idade. Meu despertar foi com os padres do Preciosíssimo Sangue, através do bispo Dom Eurico Kräutler, que veio falar para nós, crianças e adolescentes da Cruzadinha, sobre o seu trabalho missionário com os índios no Xingu. Naquele momento eu já tinha meus 14 anos, e eu disse que queria ser uma missionária. Mais tarde realizei meu sonho procurando essas irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo, norte-americanas, que tinham chegado aqui e aberto uma comunidade na Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro no Telégrafo. Acompanhada por minha irmã Maria Ruth, fui apresentar-me a elas. Ficou decidido que eu entrasse na congregação e fosse para o convento em Manaus. Tinha 22 anos de idade.

A partir da entrada no convento, como foi a sua vida. Muitas missões?
           Fiz minha profissão religiosa em 1956, em Manaus. Depois passei dois anos no Estados Unidos, para me preparar melhor para a minha tarefa. E daí fiquei tanto em comunidades do interior do Amazonas quanto na capital, Manaus, porque eu fui logo escolhida para ser secretária provincial. Tive que ficar em Manaus por oito anos. Depois fui para Santarém, como diretora do Colégio São Raimundo Nonato, uma escola conveniada com o Estado. Uma das características importantes de nossas irmãs é ter colégios mistos e populares.

Após Santarém, novos apostolados...
           Sim. Depois de Santarém, voltei a Roma. Na verdade, já fui a Roma quatro vezes a serviço, pois sou tradutora-intérprete, ajudo a congregação nas línguas italiano, inglês e português. As minhas irmãs me escolheram para ficar no Conselho Geral, onde servi durante quatro anos. Fui uma das quatro conselheiras gerais, que junto com a madre geral formam o Conselho Geral da Congregação.

Nesse período, quantas eram as Adoradoras do Preciosíssimo Sangue?
           Bem, hoje são cerca de 2 mil... Não contamos a bico de pena, como se diz, mas creio que sejam 2 mil irmãs em todo o mundo. Pois bem, depois voltei para cá e fui solicitada a ser a vice-postuladora da causa de beatificação da irmã Serafina Cinque, que tem nome italiano mas nasceu em Urucurituba, no Amazonas. Há quase 10 anos estou trabalhando nisto, pois é um serviço muito exigente que requer muitas pesquisas, viagens por todos os lugares onde ela andou, conversas, entrevistas com centenas de pessoas. É este o principal trabalho com que me ocupo agora.

E a sua atividade como escritora e jornalista. Quantas obras a senhora tem?
           Tenho oito livros publicados. São livros pequenos, com a finalidade de ajudar a juventude a apresentar peças teatrais, livros de reflexões e poesias. O primeiro foi ?Um olhar para a vida?, com alguns programas de rádio. Depois veio o ?Teu irmão de chama?, publicado pelas Paulinas. Em ?Caminhos Missionários?, descrevo minhas andanças por aí, fora do País e aqui dentro da Amazônia. No processo de irmã Serafina, escrevi um livro de 150 páginas e agora estou escrevendo outro de 500 páginas, que vai ser muito mais elaborado, documentado em escritos e baseado em fontes que depois possam ser consultadas pela congregação. O livro, com a vida dessa nossa irmã, será apresentado em italiano.

A senhora também é comunicadora. Como tem acompanhado o crescimento da mídia católica?
           Já fazem quase 15 anos que eu apresento um programa de rádio diário, de 5 minutos, na Rio-Mar, emissora da Arquidiocese de Manaus. Eu acompanho de modo muito entusiasmado o crescimento, feliz por ver que os meios de comunicação estão se adequando aos novos tempos. A nossa rádio Rio-Mar, por exemplo, foi toda colocada na era da computação. Também quero aproveitar para dar meus parabéns para vocês daqui da Fundação de Nazaré, que está dando passos gigantescos na comunicação. Em Manaus fui uma das que ajudaram a criar e entusiasmar a Rede Amazônica de Televisão. Trabalhava lá, no começo, com o programa ?Isto é Igreja?. O doutor Felipe Down, que foi o fundador da Rede Amazônica, pegou grande impulso com o nosso programa da Igreja Católica. Hoje a Rede é uma potência. O jornal, a rádio e a televisão da Arquidiocese de Belém vão crescer mais. Queremos o mesmo para o Amazonas.

Então a senhora começou a fazer televisão em uma rede civil?
          Sim, comecei em uma rede civil.

O programa continua até hoje?
           Continua, mas eu não estou mais. Quem toma conta agora é a Pascom (Pastoral da Comunicação).

A senhora tem então tanto uma vida dedicada aos pobres, à educação, à comunicação: uma missionária de tempo integral.
           Graças a Deus. Em Coari (Amazonas) eu trabalhei muito com os ?jovens de galera?. Quando cheguei lá em 1985, como missionária, os jovens estavam divididos em dois blocos, com uma ponte sobre um grande igarapé separando-os. E viviam se matando. Eu liderei alguns leigos e fizemos uma grande caminhada pela paz. Depois de dois anos de trabalho, de visita às famílias, fizemos a reconciliação entre duas gangues terríveis de Coari e foi uma beleza. Em ?Caminhos Missionários?, relato o ?Natal das Galeras?, quando eles se reconciliaram. E também, vendo que esses rapazes não tinham trabalho, eu os ajudei a criar a associação dos motoqueiros. Até então eram só senhores idosos que eram motoqueiros. Eu disse: ?Quem precisa mais são os jovens, porque se eles não tiverem trabalho, vão para a violência?. E hoje há cinco associações de motoqueiros em Coari, porque a cidade está crescendo enormemente com o gasoduto que será criado a partir do próximo ano.

São 48 anos de vida religiosa, certo?
           Da minha turma, são quatro irmãs, que celebramos Bodas de Ouro daqui a dois anos, se Deus quiser. Era uma turma maior, porém algumas ficaram pelo caminho, escolheram outras opções, e somente quatro irmãs farão estes 50 anos de vida religiosa, que normalmente são muito celebrados em Manaus.

Antes dos 22 anos, a senhora foi uma leiga como qualquer outra jovem. Como era a sua vida? A senhora estava planejando entrar na faculdade?
           Eu sempre fui catequista. Gostava de ensinar catequese; sempre tive essa paixão. Ensinava aqui no Grupo Escolar Rui Barbosa, muito mocinha. Eu queria sempre ser uma escritora, e já trabalhava na secretaria do Colégio Estadual Paes de Carvalho. Era assim minha vida. Eu era uma trabalhadora, e Jesus mostrou-me que ele me queria uma escritora, mas dentro da congregação. Realizei realmente o que eu desejava. Eu também queria ser uma missionária na África, mas Jesus mostrou que a minha África era a Amazônia.

A senhora é graduada em algum curso?
           Tenho curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Amazonas. Fui da segunda turma. Naquele tempo as freiras não estudavam à noite em universidades. Era fins de 70, por aí. Mas nós, irmãs, ?metemos as caras?, como se diz por aí. Fui estudar à noite com grande sacrifício porque era diretora de escola primária (sou formada em professora também) com 500 alunos durante o dia. Graças a Deus terminei o curso de jornalismo.

Como mulher e religiosa, a senhora ?atravessou? o Concílio Vaticano II. Quais foram os pontos positivos que a vida religiosa feminina ganhou a partir daí?
           O primeiro de tudo a facilidade para a liturgia, porque antigamente só os sacerdotes rezavam o breviário. O Concílio Vaticano II tornou a recitação aberta a todos. Até então nós, religiosas de vida ativa, não rezávamos. A partir do Vaticano II começamos a rezar, três vezes ao dia, a Liturgia das Horas, que é linda. Quem quiser rezar até mais pode, mas depende do tempo disponível. Porém, outra facilidade muito grande foi a eliminação do hábito, eu acho. Porque nós mulheres usávamos até sapato e nomes de homem. As minhas irmãs norte-americanas se chamavam Mark, em inglês, ?irmã Marco?, Charles, ?irmã Carlos?. A partir do Vaticano II nos tornamos mais femininas, mais mulheres, como o nome, com a roupa. Hoje em dia pregamos retiro. Então, sem diminuir em nada o apego que temos ao sacerdote, ao sexo masculino, que é sempre maravilhoso, nós, religiosas, nos tornamos menos dependentes, muito menos. Só podíamos ir para um lugar quando o padre havia preparado tudo. Hoje, nós mesmas vamos, abrimos as casas, e procuramos nos tornar, o mais possível, independentes. Mas sempre trabalhando em conjunto com os homens.

A senhora é muito grata a suas irmãs, que lhe dão suporte...
           Ah, devo agradecer muito a minha família, sobretudo às minhas irmãs, minha mãe, meu pai. Minhas irmãs, Maria Ruth e Maria de Belém são leigas excelentes; meu irmão padre (Monsenhor Geraldo), pelo grande exemplo que ele me dá de vida de oração, de sofrimento aceito com grande paz. Minhas irmãs me dão muito apoio, em tudo. O lançamento de dois livros, foram elas que preparam aqui em Belém. Tenho mais público em Belém do que propriamente em Manaus, onde moro há mais de 50 anos.

A senhora foi convidada para dar um auxílio no processo de beatificação de um frade capuchinho. Fale um pouco sobre isso.
           Os freis capuchinhos me procuraram. Nós já trabalhamos muito em conjunto com eles lá em Manaus. Eles estavam muito preocupados porque o vice-postulador, o que quer dizer, o vice-reponsável no Brasil, não pode mais acompanhar o processo por já estar acompanhando o de frei Damião, cuja causa está dando muito trabalho. Ele entregou o cargo e os padres estavam há um ano quase sem nada. Foi o tempo que eu terminei o da irmã Serafina, que eles viram que graças a Deus foi bem-sucedido, porque nós terminamos o processo diocesano em tempo recorde - em oito anos conseguimos reunir tudo, digitar e mandar para o Vaticano. Então eu aceitei, já estão sendo ouvidas as testenunhas em Belém, em Rondônia e em Petrópolis, mas eu não estou em primeira pessoa nesse processo. São os padres Capuchinhos. Eu só dei o apoio do meu nome, ensinei como fazer e dei os modelos da papelada necessária.

Qual a frase do Evangelho que a senhora resume a história do Evangelho, ou que mais lhe motivou nas dificuldades?
           A frase do Evangelho é ?Amarás o Senhor teu Deus de toda a tua mente, de todo teu coração, com todas as tuas forças, e ao teu próximo como a ti mesmo?. Dos escritos de São Paulo gosto muito daquela que diz: ?Radicados e fundados no Amor?, porque a nossa Congregação do Sangue de Cristo é muito ligada ao amor, à caridade, com a qual Jesus derramou o seu sangue. Ligo esta frase à espiritualidade do Sangue de Cristo, que é uma espiritualidade de doação total.

A senhora foi da mesma turma de irmã Serafina?
           Não. Irmã Serafina foi a primeira das irmãs do Preciosíssimo Sangue. Fez os votos em 1950, nos Estados Unidos. Eu fiz votos em 1956. Não trabalhamos juntas em comunidade, mas eu a encontrei muitas vezes. Quando meu pai morreu subitamente de infarto em Manaus, ela veio comigo, no avião da paraense, trazendo o corpo do meu pai.


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