A volta de Lázaro e a divindade humanizada de Jesus

     João Carlos Pereira

     Por mais simples (para Ele, claro) e silenciosas que fossem as ações de Jesus, em favor do homem que estivesse afligido por uma doença, por um demônio ou mesmo pela morte, elas sempre causaram muito impacto. Causaram e ainda causam. Todos os dias, quando leio o Evangelho e me deparo com um fato como o que vamos ler na missa, no próximo domingo, fico ainda mais encantado. A narrativa é de tal modo conhecida, que me sinto desobrigado de descrevê-la e posso, simplesmente, referir-me a ela, que todo mundo entenderá: a ressurreição de Lázaro. Imagino o quanto de fé as irmãs do defunto tinham (ou será que tinham?) para ter a certeza de que Jesus, estando lá, não teria permitido que Lázaro morresse. Imagino, também, o verdadeiro homem - igualmente verdadeiro Deus - entristecido com a situação de seu amigo muito querido. Jesus chorou porque Lázaro havia partido. Se ele, verdadeiro Deus, chorou, porque estava na pele do verdadeiro homem, o que diremos nós, pobres criaturas limitadas pelo corpo físico, quando nos deparamos com uma impossibilidade. Chorar, espernear, desacreditar, até blasfemar são atitudes muito naturais. Aliás, o que Deus nos deu como traço de nossa natureza humana só pode ser motivo de escândalo para alguém, se este alguém já houver atravessado a linha do humano e esteja no limiar da santidade. É muito difícil para o homem controlar-se diante da morte. Já tenho visto cenas terríveis, de pessoas quererem morrer junto, de pular sobre o caixão, de puxar o morto de seu descanso para tentar reanimá-lo. É muito difícil lidar com a morte, principalmente quando a educação que recebemos nos fala de separação eterna. A Igreja nos mostra o morrer com outras dimensões, mas nós, por medo, insistimos em alterar as cores do quadro. Das pessoas que conheço, apenas uma não se importa em falar de morte. Aliás, de morte não: da própria morte! Minha muito amada tia Lívia conversa sobre isso com a naturalidade de quem anuncia que vai bem ali fazer as unhas e volta para o almoço. A caminho dos 87 anos, ela já viu partir os pais, o marido, as irmãs, alguns sobrinhos e muitos amigos. Cada adeus foi um golpe, mas, ao mesmo tempo, uma lição reaprendida. Um dia desses, sonhava em voltar a Jerusalém, mas tinha receio de que a idade não ajudasse. “E se eu tiver alguma coisa por lá”?, perguntava. “Não vai ter. Se tiver, teve”, respondi, sabendo do que ela falava. Ela riu e disse: “Me enterrem por lá mesmo para não terem trabalho com papelada”. Fosse com qualquer outra pessoa, esses planos de viagem teriam um aspecto triste. Para nós, era pura realidade da vida. Como sei que ela deseja muito retornar, pela terceira vez, à Terra Santa, estou cuidando de achar uma excursão, enquanto minha tia sonha com os lugares sagrados. Sei que não se pode abrandar a dor da morte com duas risadas e fazer de conta que não é com a gente. Morrer dói, com certeza, mais em quem fica do que em quem vai. Enquanto se pisa o terreno da teoria fica fácil falar. Quando a morte de alguém muito próximo chega, nem Jesus Cristo escapa (ou escapou) do sofrimento. Mas é nessa hora que se põem à prova as verdades da fé. Ou a gente se agarra ao que Jesus disse, ou se liquida, afundando na desesperança. Neste quinto domingo da Quaresma, é fundamental que se leia a Palavra do Senhor, da qual dá testemunho o apóstolo João e que, por não resistir à beleza do texto, reproduzi aqui, como forma de antecipar o contato com o texto, uma vez que, na sexta-feira, quem tem assinatura da “Voz” já está com ela em mãos: “Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” 27Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”. 33bJesus ficou profundamente comovido 34e perguntou: “Onde o colocastes?” Responderam: “Vem ver, Senhor”. 35E Jesus chorou. 36Então os judeus disseram: “Vede como ele o amava!” 37Alguns deles, porém, diziam: “Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?” 38De novo, Jesus ficou interiormente comovido. Chegou ao túmulo. Era uma caverna, fechada com uma pedra. 39Disse Jesus: “Tirai a pedra!” Marta, a irmã do morto, interveio: “Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias”. 40Jesus lhe respondeu: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” 41Tiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos para o alto e disse: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste. 42Eu sei que sempre me escutas. Mas digo isto por causa do povo que me rodeia, para que creia que tu me enviaste”. 43Tendo dito isso, exclamou com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” 44O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano. Então Jesus lhes disse: “Desatai-o e deixai-o caminhar!” 45Então, muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera, creram nEle”.

 

 


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