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Luz vermelha
Ivens
Coimbra Brandão
Quando um motorista se aproxima de uma esquina, e o semáforo apresenta
luz vermelha, é sinal que tem de esperar, dando prioridade para os carros
que cruzam pela outra rua. Para que haja segurança para todos, é necessário
paciência, quem sabe um pouco de sacrifício para os que esperam.
Nos templos católicos, aquela luzinha vermelha no altar, ou próxima
do presbitério, é sinal da presença do Cristo Eucarístico,
onde o cristão não só deve parar, mas refletir, adorar o
Santíssimo. No relato de hoje, uma luz vermelha representou um forte sinal
a nortear uma mudança de atitude, reparo, correção de rumo.
Esboçava-se um processo de conversão. Eram tempos em que aquele
homem se encontrava na plenitude de suas atividades profissionais e funcionais.
Dentre outras, foi convidado para integrar um Conselho na área de educação,
representando a instituição onde trabalhava. Já nos primeiros
meses de atuação, tomou conhecimento que estava no tempo de eleição
para a presidência, tendo sido escolhido para tal, em uma prévia
deliberação da maioria de seus pares. Mas eis que um dos membros
titulares foi hospitalizado por poucos dias, oportunidade em que o Conselho foi
convocado para eleger o presidente, mas com a presença de um suplente,
o que viria inverter a decisão prévia. Julgando-se injustiçado,
o grupo, agora em minoria, reagiu fortemente, acabando a reunião sendo
encerrada sem qualquer deliberação, surgindo assim o impasse. Porém
mais importante do que o impasse administrativo, foi a animosidade que separava
os dois grupos, agora em ostensivo litígio. Acabou havendo uma intervenção
superior, com roupagem conciliatória, mas que dava apoio para o grupo
que já detinha a presidência do Conselho. Tal era o clima de animosidade,
que mesmo mantido na presidência do Conselho, o escolhido sob “inspiração” superior,
deixou de freqüentar as reuniões, sendo substituído pelo vice-presidente.
Foi quando o nosso personagem, já cognominado de “aquele homem”,
foi chamado a se aproximar da Igreja, quiçá ali iniciando um processo
de conversão. Agora, cônscio de seu compromisso cristão,
passou a rever suas atitudes nos seus ambientes naturais, qual seja na família,
no trabalho, lazer etc. Foi neste espírito que resolveu se aproximar daquele
considerado como seu principal algoz, na disputa ora relatada. Como não
mais o encontrava no Conselho, o jeito foi procurá-lo na residência.
Receoso de ser rejeitado, afinal o entrevero havia sido dos mais fortes, pediu à esposa
que o acompanhasse, não como “escudo”, mas como sinal de boa
vontade. Depois de rezarem foram confiantes. Era um início de noite, o
ambiente pouco iluminado, e lá estava o homem, juntamente com a esposa,
a recebê-los. Diante das primeiras considerações, com palavras
cautelosas ao encaminhar o pedido de reconciliação, eis que o anfitrião
entendeu como uma proposta de acordo político. Foi então que a
sensibilidade feminina, na pessoa da esposa, fez-se sentir, assim dirigindo-se
ao marido: “Preste atenção no que ele está dizendo”.
De fato aquela senhora, já de certa idade, discerniu que estava sendo
proposta uma reconciliação em nível pessoal, acima de qualquer
manobra política. Mas o leitor que até aqui chegou, certamente
está à espera de encontrar a luz vermelha inicialmente citada.
Esta-se chegando lá. Era um final de semana em Mosqueiro, quando ao cair
da tarde do sábado, o nosso personagem e esposa se dirigiam à missa
das 18h30 na pequena Capela do Chapéu Virado. Ao se aproximarem, percebeu
que um dos poucos carros estacionados à porta da Capela estava com a luz
mínima acesa, chamando-lhe atenção a “luz vermelha” da
lanterna traseira. Tinha a intenção de participar da missa, inclusive
comungando. Mas ao adentrar no pequeno ambiente, olhando para trás, deu
de cara, com um dos seus oponentes no dito Conselho, com quem havia trocado ofensas.
Em termos cristãos, era uma situação desafiadora: para participar
da Eucaristia, teria que se reconciliar com aquela pessoa. Foi quando a estratégia
humana, deixou-se iluminar pela Graça de Deus. Dirigindo-se ao homem,
perguntou-lhe se era seu o carro que ficara com a lanterna acesa. Deu certo,
sendo o bastante para que a pessoa se mostrasse agradecida, ao confirmar ser
o carro de sua propriedade. Mas aquele momento precisava ser desenvolvido, celebrado,
tanto que após a missa os dois casais se encontraram à porta da
Capela, onde trocaram saudações, surgindo aí o convite de
um, e o aceite do outro, para que mais tarde se reunissem na casa de um deles,
para “jogar conversa fora”. Assim aconteceu, ficando selada a reconciliação.
De parte do nosso personagem, “daquele homem”, era o início
de uma caminhada, onde haveriam de surgir muitos desafios. Hoje, carregando o
peso da idade, continua seu peregrinar nas estradas deste mundo, tantas vezes
aos solavancos, mas confiante na promessa de Jesus Cristo: “Carreguem minha
carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração,
e vocês encontrarão descanso para suas vidas. Porque a minha carga é suave
e o meu fardo é leve” (Mt 11, 29-30).
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