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A
vida como ilusão
Mons.
Aderson Neder
Sacerdote Diocesano
Tempos atrás escrevi uma crônica
negando que a vida fosse só uma ilusão.
Hoje volto ao assunto, reconhecendo que, mesmo
que ela não seja, há quem faça
dela uma ilusão, o que leva a não
vivê-la, mas a transformá-la numa
verdadeira estagnação. Refiro-me
aos impedimentos que vamos adquirindo e colecionando
no correr de nossa existência. Quando jovens
esses empecilhos tinham uma característica,
mas depois se foram multiplicando sem freio e
sem preocupação de dizer um basta,
porque, sendo em geral pecaminosas, eles fizeram,
mais uma vez, aquilo que é comum se dizer
mesmo no meio do povo: um pecado sempre chama
outro. Atualmente se fala muito, porque existe
em proporção assustadora, um pecado
que a própria Bíblia, no Antigo
Testamento, já cita e condena, que é o
entendimento do amor humano como um simples prazer,
o que poderia ser procurado de qualquer maneira,
mesmo contra a natureza sexual estabelecida por
Deus, em todas as suas formas e diversidades,
como se o Senhor não tivesse feito nenhuma
determinação explícita.
Por estar tão espalhado no mundo, seus
defensores maiores querem que até a Igreja,
principalmente na pessoa do Papa, o aprove em
suas idéias e procedimentos, mesmo que
estejam contra a própria revelação
divina. Seus adeptos não se contentam
em serem respeitados, como pes-soas humanas que
são, mas também desejam que a Igreja
aceite suas idéias e práticas como
sãs e virtuosas. Infelizmente, certas
seitas, que ousam se denominarem igrejas, para
ganharem simpatia, apressam-se em aprová-las
e torná-las vigentes entre seus seguidores.
Outro pecado antigo, que agora, mais do que nunca
se tornou moda, é o adultério e
o amor livre. Este, no âmbito eclesial,
o denominamos de mancebia e quem os aceita e
assume de amancebados ou amasiados. Ambos envolvem
um grave pecado contra a lei do matrimônio,
especialmente do sacramento. Praticamente não
aceitam os ensinamentos da Igreja a respeito,
até mesmo por ignorância do assunto.
Não sabem que o adultério é um
pecado duplo, contra a castidade, porque afeta
a norma matrimonial, e contra a justiça,
porque atenta contra o direito do outro cônjuge.
Em geral, é praticado por pessoas mais
conscientizadas, mas de fé insuficiente,
que ocasionaram não levar a sério
seu casamento como realização de
uma vocação divina. Por isso, como
se diz na gíria: “brincaram com
coisa séria...” . Embora haja outros
pecados de ilusão, cito em terceiro lugar,
pela sua importância negativa, a prática
quase generalizada do aborto, um pecado tão
tenebroso e tão infame que a Igreja castiga
com a pena de excomunhão a mãe
que aceita fazê-lo e quem a ajudar nesse
crime covarde. A vida como ilusão, dentro
desses moldes que apontei e de outros inúmeros
moldes, é causa de uma série de
distorções que atrapalham a própria
vivência eclesial. Só eles já fazem
com que a Igreja tenha razão quando, nas
orações eucarísticas, a
primeira a se chamar, não só de
santa, mas de pecadora. Tais atitudes vivenciais
não trazem felicidade para ninguém.
São sempre praticadas por pessoas que
não negam a sua tristeza, a sua amargura
pelo sentido negativo que estão dando
a uma existência que deveria ser santa,
gerando uma espiritualidade benfazeja que é sinônimo
de felicidade. Em minha vida ministerial, quantas
mães encontrei que, mesmo dizendo que “mil
vezes” já tinham pedido o perdão
divino para seu pecado de aborto, só a
lembrança deles as fazia sofrer, porque
as tornou não só simples pecadoras,
mas com o acréscimo de se sentirem assassinas
dos próprios filhos. Tinham uma dor moral
interior muito lancinante, que as fazia repetidamente
chorar. O mesmo acontece com quem vive em adultério,
principalmente se já teve uma juventude
mais piedosa, pela saudade que sente da comunhão
eucarística, de cujo banquete não
pode mais se aproximar. O mesmo se dá ainda
com o estado de mancebia, que reduziu alguém
a uma situação de exclusão,
na qual por própria opção
se colocou. O pecado não traz felicidade
para ninguém, especialmente o pecado mortal,
ou seja, aquele que afasta Deus de nós,
tirando-nos a convivência com Ele e nos
deixando na maior indigência. Se Ele nos
oferece uma Vida Plena, que se chama Graças,
por que não permanecer nela, lutando com
coragem contra aquilo que nos pode afastar da
Comunhão - comum-união - com o
Divino. Convivendo com Deus, podemos dizer que,
de um certo modo, também somos divinos
e nossa vida pode chegar à plenitude.
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