Breve encontro em Paris

     Pedro Veriano

     Um amigo meu, o psiquiatra e critico de cinema Maiolino Miranda, esteve no Quartier Latin (Paris) e visitou a livraria “Shakespeare Co”, espécie de refúgio de intelectuais do mundo inteiro. Seguiu indicações de um paraense como ele, Antônio Muhoz Lopes, “globetrotter” que por sinal escreveu sobre cinema em “A Palavra”, jornal católico que antecedeu a Voz de Nazaré. No local, em oportunidades diferentes, eles conversaram com o proprietário, um senhor que hoje, se ainda vivo, deve ter mais de 90 anos. Maiolino riu muito quando este senhor francês confundiu Pará com Paraná. Pelo menos ficou no Brasil. Mas a visita à livraria fez com que Munhoz escrevesse ao conterrâneo pedindo que ele não deixasse de ver o filme “Antes do Anoitecer” (Before Sunset/EUA, 2003), uma estréia da semana passada aqui em Belém. Numa cena filmada na livraria apareceria o dono (na verdade foi um ator passando-se pelo dono). Bem, este detalhe só interessa a quem já foi a França e perambulou pelo bairro dos letrados de lá. O filme em cartaz começa tratando de um lançamento de livro. Um escritor norte-americano chamado Jessé (Etah Hawke) vende as lembranças de um encontro que manteve em Viena, 9 anos antes, com uma jovem francesa em trânsito como ele. Os dois teriam de esperar baldeação ferroviária para prosseguir viagem a seus destinos. Passaram 14 horas na terra da valsa, andando e flertando. Na despedida prometeram se encontrar ali mesmo seis meses depois. O fato deu margem ao filme “Antes do Amanhecer”. Hoje ele escreve o que sentiu e ela chegou a compor uma valsa por seu lado. Encontram-se na livraria. Saem para conversar. Ele agora só tem 90 minutos livres (pegará um avião para os EUA), mas a conversa deve cobrir muito mais no tempo. São cobranças entre lembranças que revelam devagarzinho uma paixão adormecida. Hoje ele é casado e pai. Ela não. Mas o que dizer de fidelidade em poucas horas na capital austríaca quando eram bem mais jovens? O filme é isso: diálogo de 75 minutos sobre a perenidade de um afeto. É interessante observar como se fica sentado numa poltrona de cinema escutando pessoas falarem de assuntos que aparentemente só dizem respeito a estas pessoas. Será que cinema pode ser só fala? Será que a gente pode se interessar por dois ex-namorados revendo uma afetividade que nem chegou, pelo menos em termos de tempo, a amadurecer? O diretor Richard Linklater e os atores Ethan Hawke e Julie Delpy provam que sim. “Antes do Anoitecer” é o que se chama de “cult-movie”, sensibilizando diversas platéias na eloqüência de quem diz o que pensa, o que pensou, o que sentia e o que sente. O roteiro foi escrito pelo diretor Richard Linklater e pelos dois únicos intérpretes. Certamente há muito improviso, pois as falas são naturais, como se as personagens estivessem conversando na hora. Naturalmente você pode discutir caracteres e rumos dos acontecimentos de acordo com a sua sensibilidade. Mas é impossível negar que o filme é bem original, que é tagarela, mas não é teatro-filmado, que poreja verdade sabendo-se mentira. Outro filme da semana chamou-se, por curiosidade, “Depois do Por do Sol” (After Sunset), Traduziram para “Ladrão de Diamantes”. Nada a ver um com o outro. Aqui é a história de um audacioso ladrão de jóias que se vê tentado a mais um golpe quando já havia declarado aposentadoria. Ele cita Oscar Wilde: “O melhor modo de resistir a tentação é aderir a ela”. Por isso rouba uma preciosa relíquia de dentro de um navio. E na arte de ludibriar os outros ousa afrontar um agente do FBI. Naturalmente com um fim adaptado ao amoralismo de hoje. Não é que o ladrão seja inteiramente bem sucedido, mas quando ele próprio é roubado passa por uma vítima heróica, roubando quem o roubou. Pior exemplo é “Chuva de Verão”, filme neozelandês que focaliza a destruição de uma família numas férias de verão. A cineasta Christine Jeffs “castiga” uma jovem que se inicia sexualmente com o amante da mãe pondo-a como responsável pela morte do irmão menor por afogamento. Esses filmes moralmente contraditórios confundem espectadores imaturos. É preciso discernir caminhos e descaminhos de conteúdos complexos. Finalmente ressalto “O Vôo do Fênix”(The Flight of the Phoenix), refilmagem de um roteiro de Lukas Heller para uma novela de Trevor Dudley Smith, dirigido em 1965 por Robert Aldrich com James Stewart, Richardz Attenborough, Peter Finch, Hardy Kruger e Ernst Borgine no elenco. A história se repete: um avião cargueiro sofre um acidente em uma região deserta, antes no Sahara, agora na Mongólia, e os tripulantes e passageiros ficam à mercê do clima hostil desde que não consigam consertar o que sobrou do aparelho e com isso decolar para um lugar seguro. O tiÍtulo original vem da ave mitológica que renasce das cinzas. O primeiro filme foi muito bem-feito, com o ritmo certo, atores simpáticos, clima de “suspense”. Refilmar é requentar. Quem gosta de café requentado não deve reclamar. Mas quem vai muito a cinema deve convir que substituir o velho James Stewart por Dennis Quaid é como trocar vinho por suco de uva industrializado. Quem teve a idéia de voltar ao assunto foi o filho do diretor Aldrich, convocando para a direção John Moore, cineasta sem currículo expressivo. O que se observa nos filmes caros feitos hoje em dia é que os executivos responsáveis pela comercialização dos produtos preferem refazer enredos a imaginar novidades.Parece que apostam naquela sentença de que “é melhor o seguro do que o duvidoso”. Com isso vale dizer que o espectador mais experimentado já viu de tudo. Uma fênix tornar a voar é um engodo. Na certa as cinzas são efeitos especiais...


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