A moral, diz o professor Dalton, tem que impor limites e indicar o
uso correto do saber humano para o bem do próprio homem

Direito à vida e à dignidade está sempre acima de qualquer tecnologia avançada

O professor livre docente de bioética da Universidade de São Paulo (USP), Dalton Luiz de Paula Ramos, 47 anos, é um dos três integrantes brasileiros da Pontifícia Academia para a Vida, sediada no Vaticano, criada pelo Papa João Paulo II em 11 de fevereiro de 1994. Seus objetivos são estudar, informar e formar sobre os principais problemas da Biomedicina e do Direito relativos à promoção e à defesa da vida, sobretudo na relação direta que estes têm com a moral cristã e as diretrizes do Magistério da Igreja. O professor esteve no Centro de Cultura e Formação Cristã (Ananindeua) no último final de semana para ministrar um módulo do curso de pós-graduação Lato Sensu em Bioética, ensinando os fundamentos da Bioética e a ética na pesquisa com seres humanos. Nesta entrevista, explica o que é Bioética e o que ela diz a respeito do começo e do fim da vida humana. Garantindo que os avançados estudos da nesta área têm confirmado aquilo que a Igreja ensina no que diz respeito à objeção ao aborto, à eutanásia e ao uso de métodos anticoncepcionais, alerta para os interesses econômicos escondidas atrás dessas práticas.

O que é a Bioética?

A Bioética é uma ciência que surgiu como disciplina estruturada a partir da década de 70. Tem como objetivo estudar o impacto das novas ações tecnológicas para a vida e discutir quais são os valores morais que tem que ser colocados quando a gente está falando de tecnologias, e eventualmente indicar limites para o uso dessas tecnologias. Na verdade, a preocupação bioética sempre existiu. Quando o ser humano descobriu o fogo, talvez o primeiro recurso tecnológico descoberto pela humanidade, se preocupou em saber que uso se podia fazer disso: aquecer, cozinhar e também destruir. Com relação ao fogo, a humanidade teve milênios para aprender a lidar com essa tecnologia. Foi aos poucos aprendendo o que ela tem de bom e de mau. Só que agora, nós, que nascemos no século XX e estamos entrando no século XXI, a cada dia nos relacionamos com novas tecnologias. A gente mal consegue acompanhar ou usar todo um recurso tecnológico e, de repente, já surgiu um novo. Então, o que está acontecendo conosco nesses últimos 200 anos: estamos sendo atingidos por recursos tecnológicos que chegam a cada momento, e não temos tempo suficiente para entender o sentido desse recurso, até para poder fazer bom uso dele. O século XX foi bastante significativo nisso. Na primeira metade do século vimos muita descoberta tecnológica na área da engenharia, da química, da sociologia, da biologia. Mas ela, se teve um uso bom, também teve um uso mau. Um exemplo: nesses dias recordam-se os 60 anos da destruição de uma cidade (Hiroshima) pela bomba atômica. A bomba atômica é o domínio do átomo do urânio, das substâncias radiativas. Se por um lado, dominando as radiações posso propor uma ferramenta de diagnóstico médico, as radiografias, que eu posso usar para o crescimento da humanidade, por outro lado, posso usar essa mesma tecnologia para construir uma bomba e matar milhares ou milhões de pessoas.

Então, a Bioética vai mais além do que falar em eutanásia e ao aborto?

Isto, muito bem colocado. Estes são os grandes temas que estão na mídia, desafios tecnológicos envolvendo a área de saúde. Mas a Bioética não está preocupada só com isso. Está preocupada com os problemas ambientais. Tanto que aqui, na especialização em Bioética do Centro de Cultura e Formação Cristã, o curso também dá um enfoque ligado à Ecologia. A Bioética está preocupada em preservar a vida. Claro que a vida humana é o maior patrimônio que nós temos, mas as a preservação das outras vidas também é importante para a manutenção da vida humana. Em um ambiente poluído, não podemos pensar que as pessoas possam viver de forma digna. Conseqüentemente, em prol da dignidade das pessoas, vamos zelar pela Ecologia.

Quando começa a vida humana?

Este é um dos grandes temas da Bioética. Aliás, é um tema bastante atual porque muitos colocam dúvidas de quando começa exatamente uma nova vida humana porque têm seus interesses. Mesmo que a gente não faça uma discussão dogmática, teológica, a genética só vem a confirmar um fato: uma nova vida humana começa no exato momento em que o gameta feminino (isto é, o óvulo, que está no útero da mulher) se junta ao gameta masculino (o espermatozóide). Começa no exato momento em que esses dois gametas se juntam e aparece aquilo que vamos chamar de embrião. Ali nós temos uma nova vida humana, que se caracteriza por ser um processo contínuo, que dali só vai acabar na morte; por um processo coordenado pelo DNA, que vai “dizer” para aquele embrião o que ele precisa fazer (em um embrião de uma única célula já existem todas as informações essenciais para que aquela célula possa fazer tudo aquilo que ela precisa fazer); por um processo progressivo, que por si só não pára. Esse é um conhecimento que vem da Biologia e não dos dogmas da Igreja. A Biologia vai reforçar aquilo que a Igreja sempre pensou: a vida humana é um processo contínuo, coordenado e progressivo, e começa no exato instante da fecundação. Logo, a partir daquele exato instante ela é dotada da mesma dignidade da vida de uma criança, de um adolescente, de uma adulto e de um idoso. A vida tem um ponto de início, e a partir daí ela é dotada de uma dignidade, de uma totalidade que é um bem que não é de ninguém. É algo que nos é dado.

Sobre o final da vida, o que a Bioética tem a dizer?

Com relação ao final da vida, a grande discussão que se faz e cada vez mais tem sido feita no Brasil diz respeito à eutanásia. A eutanásia direta é quando há ação, ou de uma pessoa externa ao paciente ou do próprio paciente visa provocar a morte. Então, toma-se um remédio letal, aplica-se uma injeção letal. Enfim, se faz alguma coisa ativa no sentido de se provocar a morte. E quando a pessoa pede para morrer? Quando está sofrendo muito. Ela sofre a dor física (é o caso de doentes com doenças muito graves, chamados pacientes terminais ou moribundos), sofre também a dor da “perda do sentido da vida”. Principalmente quem está doente, debilitado pela própria doença física, tende a ficar mais debilitado no que diz respeito essa “perda do sentido da vida”. Tanto a dor física pode ser tratada, como também o sofrimento pela “perda do sentido da vida”: a dor física com medicamento e intervenções médicas; a dor da perda de sentido, pela acolhida e às vezes também por um tratamento técnico. Tudo isso exige de nós que batalhemos por ter esses recursos disponíveis. O que é importante para nós é entendermos que a morte faz parte da vida. Todos nós vamos morrer. É importante que a gente aprenda a morrer, não no sentido de provocar morte com uma injeção letal, mas que a gente se prepare para a morte, para que a gente possa morrer com dignidade. A eutanásia não é uma morte digna.

A Bioética se pronuncia sobre o uso de método anticoncepcionais?

A Bioética fala sobre todos os aspectos que envolvem anticoncepção como também procriação. Nesse sentido, a Ciência vai nos ensinar algumas coisas. Ela nos ensina, por exemplo, que muitos dos métodos anticonceptivos artificiais, que muitas vezes são propostos à população, na verdade dão problemas à saúde. Por exemplo, a pílula, que é tão usada e difundida, é, na verdade, um medicamento à base de hormônios. Já há muitos relatos a respeito dos problemas decorrentes da utilização de hormônios. Os relatos chegam, inclusive, a citar esterilidade. Aquilo que foi usado por um casal para adiar uma gravidez pode se transformar em esterilidade. Quando se pretende ter o filho, aí se vai ter dificuldade. Os métodos artificiais, de alguma forma, podem causar problemas para a saúde. E aos problemas físicos, biológicos, médicos, vamos somar os problemas de sentido. A sexualidade tem que ser trabalhada em todas as suas dimensões, não só na dimensão física, da gravidez e da não-gravidez. A sexualidade tem que ser trabalhada enquanto uma dimensão da vida. Temos que propor uma educação da sexualidade, para que se possa fazer um uso adequado desse dom. Quer da parte da Bioética, quer da parte da Igreja, não há uma negação da sexualidade, mas uma proposta de como vivê-la de uma forma totalizante, de uma forma verdadeira, de uma forma que construa a pessoa como pessoa e que possa garantir a procriação no sentido mais verdadeiro que ela de fato tem como vocação.

Qual é o limite ético dos tratamentos estéticos (de beleza)?

Como em toda intervenção sobre a pessoa humana, precisamos fazer uma avaliação de risco e benefício. Eu diria que uma intervenção, principalmente médica, tem que ser justificada com base em um benefício real que ela possa trazer. Obviamente, o sentir-se bem esteticamente é um elemento do benefício, mas nós temos que fazer uma avaliação bem equilibrada, bem ponderada de até onde a gente pode ir em prol da conquista da melhora do aspecto estético. Sem entrar em detalhes, me refiro a uma série de cirurgias estéticas que podem até trazer algum tipo de benefício no sentido de melhorar a estética, mas se forem analisadas com critério, cuidado e principalmente honestidade pode ser que a gente verifique que o risco que ela implica, não só o risco efetivo, aquele do momento do ato cirúrgico, mas às vezes os riscos tardios, as seqüelas que podem ficar na pessoa para toda a vida. Buscar a beleza não é um mal em si, mas buscar a beleza a todo custo pode ser um mal, sim, e é esse equilíbrio que devemos buscar.

E como o senhor avalia essa experiência de ensino no Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém?

Aqui em Belém, essa iniciativa da Arquidiocese, como em outras iniciativas que a gente conhece pelo país são importantíssimas porque ao difundir a reflexão a respeito de todos esses temas (eutanásia, aborto, transgênicos, uso de embriões humanos congelados, entre outros). Todas essas discussões precisam ter uma maior participação de todos, porque como são temas que interessam a vida, e muitas vezes a defesa da vida. Se nós não esclarecemos as razões pelas quais somos contra o aborto, contra a eutanásia, contra a utilização de embriões humanos para pesquisas, muitos podem entender que nossas objeções são puras razões dogmáticas, fundamentalistas. Não é nada disso não. Nós temos razões sim. E digo mais: aqueles que muitas vezes são contra alguns pontos de vista nossos não têm as razões, a não ser seus puros interesses econômicos. Quando a gente fala de eutanásia, por exemplo, temos que lembrar que ela interessa aos sistemas de saúde porque antecipar a morte significa economizar nos tratamentos. Nos países em que foi autorizada a eutanásia vimos uma grande economia por parte daqueles que poderiam estar financiando o tratamento de pacientes com doenças graves. Você não precisa mais de UTIs, não precisa mais que os planos de saúde gastem muito dinheiro com aquele paciente que vai morrer daqui alguns meses, deixando de pagar o plano de saúde. É importante que essa discussão toda clareie, para todo o grande público, as razões dos nossos pontos de vista, e por que não dizer, como católicos, as razões de nossa fé.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 



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