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Teófila não se considera humilde,
mas seus amigos elogiam
a “simplicidade natural” e
o despojamento dela
Humildade, bela virtude esquecida por
muitos A
partir desta edição, começomos
a publicar na Voz de Nazaré uma série
de reportagens sobre os principais ensinamentos de
Jesus Cristo. Fé, Amor, caridade, perdão,
zelo, renúncia, entre outras virtudes ensinadas
e vividas pelo Nosso Mestre, serão assuntos
de entrevistas com sacerdotes, religiosas e leigos.
Especialista em Bíblia e professor do Instituto
Regional para a Formação Presbiteral
padre Giovanni Martoccia ajudará, por meio
de artigos fundamentados nas Sagradas Escrituras.
Para começar a série, falaremos sobre
a humildade, uma virtude tão necessária
em tempos regidos pela arrogância, intolerância,
mania de grandeza e ganância política.
Conhecido por sua simplicidade, disponibilidade,
humildade franca e amor ao seu rebanho, o Arcebispo
Emérito de Belém Dom Vicente Zico abre
a série. Amado por suas virtudes e admirado
mesmo por quem não faz parte da Igreja, o
Arcebispo dá simples, porém grandes
lições em seu testemunho de vida pessoal
e sacerdotal.
Dom Vicente,
o que é a
humildade?
A humildade, vista à luz da
humilhação a que Jesus Cristo se sujeitou,
nos leva a reconhecer que de fato não somos
nada. Pelo contrário, somos miséria
e pecado. Jesus, que era tudo, se reduziu, aniquilou
a si mesmo. A humildade, logo, é o reconhecimento
de que, pelos nossos pecados, somos nada. A humildade
também é reconhecer que tudo o que
temos de bom nos vem de Deus. Todo o bem que possuímos
vem de Deus. Como dizia São Paulo: “O
que tens é o que recebeste. E se recebeste,
por que te orgulhas ou te glorias como se não
tivesse recebido?”. O apóstolo nos fala
da virtude da humildade. A humildade também
não é somente reconhecer que somos
nada ou pouco, e tudo o que temos de bom recebemos
de Deus, mas ainda esvaziar-se de coração.
Como dizia São Vicente de Paulo: “Quando
nos esvaziamos de nós, Deus nos enche com
a sua presença”. Podemos observar que
Nosso Senhor foi humilde porque se reduziu a um de
nós, estando muito acima de nós. E
nesse “apagamento” de Cristo, Deus se
revelou, sendo a fonte de nossa salvação
a ponto de dizer: “Aprendei de mim a ser humildes
e mansos de coração”.
E o que fazer para sermos humildes?
Devemos aceitar que temos fraquezas, somos limitados. É preciso
aceitar-se. Alguém pode revoltar-se quando
percebe que, apesar dos esforços, é sempre
mais fraco do que se pensa. Para sermos humildes
temos que nos aceitar limitados. Mas isso não
significa dizer que a pessoa fraca deve se acomodar,
porém, contar sempre com a graça de
Deus para superar o pecado, as fraquezas. A graça
de Deus não deve ser atribuída a nós.
Devemos acreditar que pelas nossas forças,
não podemos muito, mas pela força,
que é a graça de Deus, que nos ajuda.
Por que Jesus Cristo nos pediu para sermos humildes?
Jesus Cristo foi verdadeiramente humilde. Somente
quem dá testemunho verdadeiro de uma virtude
tem condições de levar aos outros o
valor daquela virtude. Nosso Senhor deu testemunho,
foi humilde porque se apagou. Ele era tudo, por ser
Deus, mas se fez homem. São Paulo, na Carta
aos Filipenses, fala sobre isso: “Ele se reduziu
a nada, fazendo-se homem e fazendo-se servo de todos”.
Quem dá um testemunho de humildade, faz como
Jesus Cristo fez. Jesus além de ser humilde,
falou da importância da humildade muitas vezes;
falou da necessidade de ninguém ser orgulhoso,
soberbo, arrogante para com Deus e por isso mesmo,
a pessoa humilde tem que afastar de si a possibilidade
de ser o melhor. Jesus também foi muito consciente
do que dizia a Sagrada Escritura do valor da humildade.
Segundo o Livro dos Salmos: “Como a fumaça
se dissipa e como a cera se derrete, assim vão
perecer os iníquos perante a face do Senhor”.
Quer dizer, aqueles que pensam que são muitos,
se desfazem e dissipam como uma vela diante do fogo.
Quem pensa que é muito, basta uma pequena
provação para notarmos que não
são de nada. “Meu coração
não é orgulhoso, nem se eleva arrogante
o meu olhar, não anda a procura de grandezas,
não tem pretensões ambiciosas” (Salmo
130). É a imagem daquele que assimilou e assumiu
o valor da humildade. As pessoas não podem
querer ser mais do que são. Jesus, em seus
testemunhos, refletia sobre a necessidade de não
sermos soberbos e orgulhosos.
E o que dizer sobre a humildade de Maria?
A humildade de Maria está em suas próprias
palavras, quando Ela foi contemplada por Deus, com
a maior graça que uma criatura podia ter,
sendo escolhida para ser a Mãe do Filho de
Deus, disse que “o Todo Poderoso olhou para
a pequenez de sua serva”. Ela não deixou
de reconhecer a Sua humildade, porque como dizia
Santa Teresa D’Ávila: “Humildade é a
verdade”. Deus fez em Maria grandes obras,
que olhou para a sua pequenez. A pessoa se considerar
pequena é um gesto de humildade, mesmo quando
se é escolhido por Deus para ser o maior.
Nossa Senhora foi humilde porque não se sobressaiu
em nada, nem em relação às mulheres
desse tempo. Ela não se sentiu importante,
mesmo sabendo que era. Ela ficou como qualquer outra,
cuidado de seus afazeres de casa, vivia comum na
sociedade de Nazaré. Não se distinguiu.
Quem é humildade não pode querer aparecer.
O Evangelho nos diz que devemos ser puros como as
crianças...
Por isso, a importância de se observar as
crianças. Elas são pequenas, mas nos
ensinam muitas coisas como a inocência, a simplicidade,
confiança nas pessoas, a facilidade de esquecer
os aborrecimentos. Criança nos ensina muitas
coisas.
E a falsa
humildade? Ela chega a ser pior que a arrogância
e dissimulação, não é verdade?
A falsa humildade é uma arrogância
camuflada porque a pessoa que é limitada,
não é pequena, e acaba sendo demagoga,
ridícula, porque se torna uma pessoa orgulhosa.
Com um tempo as pessoas notam que o falso humilde
quer mesmo é aparecer como uma pessoa humilde
e ser bonita aos olhos dos outros.
Modo de ser que cativa quem se aproxima
Amiga de Deus até no nome,Teófila
Matos, 61 (do grego “Theo” = Deus; “filos” =
amizade), apesar das dificuldades encontradas na
vida diz que tem motivos para ser feliz consigo e
com o próximo. Paroquiana dedicada à Paróquia
Mãe da Divina Providência, no Conjunto
Providência, ela é bastante querida
pela comunidade, que admira sua humildade e simplicidade.
Teófila é envolvida em diversas pastorais
da Paróquia, como a catequese, liturgia e
ministério de comunhão. Ela ajudou
a fundar a comunidade católica na área
há mais de 20 anos. “Ela é uma
mulher fora de série. Muito batalhadora, sofredora,
mas nunca está zangada e não reclama
de nada na vida”, afirma o diácono Raimundo
Oliveira, 71, amigo pessoal de Teófila. “Ela
foi uma das primeiras pessoas que participaram conosco
em nossa caminhada no bairro. É uma pessoa
muito simples e humilde”, afirma. “Como
dizia São Bernardo: ‘a humildade agrada
muito mais a Deus, do que a exaltação”.
E a dona Teófila sabe ser uma pessoa humilde. É natural
dela”, complementa. Mesmo com as dificuldades
de relacionamento dentro de casa, Teófila
procura “guardar tudo em seu coração”. “Nossa
Senhora é um grande exemplo para nós,
principalmente para quem é mãe. Temos
que amar e saber entender a todos, em especial aqueles
que amamos”, diz. Ela é apaixonada pelo
serviço à Igreja e trabalhar pela Paróquia
da Providência é uma bênção,
afirma. Todos os dias, a ministra da Eucaristia visita
os enfermos, a quem chama, carinhosamente de “meus
filhinhos”. “Me sinto feliz com esse
trabalho. É preciso se doar pela Igreja sem
querer nada em troca, porque já damos muito
pouco para Ele”, ensina. Teófila afirma
que no mundo as pessoas precisam amar e serem amadas
e que “devemos ser humildes para ajudar as
pessoas a encontrarem o caminho”. “Não é isso
que nos pede o Evangelho? Não podemos deixar
de rezar, amar e aceitar a vida, senão não
seremos cristãos”, comenta. “Tudo é graça
de Deus”, completa, humildemente. Para ela,
a solução para as dificuldades da vida é amar,
pois “o amor nos preenche em tudo”. “Ser
humilde (Teófila não se considera uma
pessoa humilde) não é ser ‘abestado’,
mas saber acolher as coisas e ficar em silêncio
diante dos maus momentos, refletindo com o coração
voltado para Deus”, diz.
Silenciar
também é uma
forma de ser humilde
“A melhor forma de lidar com as dificuldades
e as pessoas difíceis é o ‘calar’.
Não adianta combater, é preciso silenciar,
voltar os olhos, a mente e o coração
para Deus”. Esse ensinamento de vida é da
dona-de-casa Antônia Fonseca Guedes, 59, que
vê nas coisas simples a melhor maneira de relacionar-se
com o mundo e com as pessoas. De voz branda e sorriso
afável, Antônia é conhecida pela
sua humildade “no falar e no agir”. Na
Paróquia de Santa Luzia, Jurunas, onde participa,
a comunidade a tem como uma “mãezona”. “É verdade.
As pessoas gostam de conversar comigo e eu sinto
o carinho delas”, afirma encabulada. Ela diz
que procura viver sempre alegre, ouvir as pessoas
e promover a unidade. Membro do Apostolado da Oração
há 25 anos e ministra da Eucaristia há 17,
Antônia gosta de incentivar a fraternidade. “Sempre
canto com os meus amigos aquela musiquinha do Zé Vicente: ‘Eu
sou feliz é na comunidade, na comunidade eu
sou feliz...’. Para sermos felizes temos que
ser humildes de coração, ouvir mais
que falar, acolher as pessoas, sorrir”, diz.
Mãe de seis filhos e com oito netos, Antônia
procura viver em clima familiar com os irmãos
de comunidade. Ela participa das atividades da Paróquia
de Santa Luzia e nunca desanima diante das diferenças: “Procuro
seguir os ensinamentos de Jesus, que nos diz: ‘aprendei
de mim que sou manso e humilde de coração’.
Sem Ele, não somos nada, não seremos
humildes e nem teremos felicidade”, comenta.
Antônia também dá a dica para
ser humilde diante dos momentos de raiva e aborrecimento. “Temos
que rezar continuamente para sermos compreensivos,
pacientes com o próximo. Pedir a luz de Deus,
porque sem o Seu Amor e conhecimento, não
podemos transmitir a Sua Paz”, ensina. “É preciso
falar no momento certo, na hora certa e do jeito
certo, como diz a canção de Padre Zezinho”,
completa. A dona-de-casa também diz que é preciso
agradecer a Deus constantemente pelas “boas
coisas” da vida, como a família feliz. “Graças
a Ele não tenho inimigos e nem desafetos.
Procuro viver em paz e transmiti-la para quem encontro”,
afirma.
Humildade
Padre Giovanni Martoccia Especialista em Sagradas
Escrituras Falamos de humildade como estado (humilhação)
e humildade como atitude (mentalidade, disposição
do coração). A miséria de Israel
no Egito era uma humilhação, triste
e dolorosa, e seu grito de liberdade foi ouvido por
Deus, que resgatando-o da mão de um poderoso
opressor livrou-o da condição de escravidão
e fez dele seu povo eleito. Essa experiência
fundamentou a fé de Israel e sua convicção
de que Deus sempre olha para os pobres e necessitados
e vem em seu socorro, humilhando os poderosos. Assim
os pequenos, fracos e humildes que põem sua
confiança em Deus experimentam seu auxílio
sempre fiel. Ele quis ser conhecido como o protetor
dos desprezados, o libertador dos oprimidos. As mulheres
sem filhos, as viúvas, os estrangeiros, os
injustiçados, enfim as pessoas desamparadas,
abandonadas e excluídas continuaram testemunhando
ao longo dos séculos que Deus olhou para sua
miséria e se mostrou compassivo operando coisas
maravilhosas em favor delas. O princípio vétero-testamentário,
segundo o qual Deus levanta os humilhados e abaixa
os elevados, é também adotado por Jesus
na sua pregação do Reino de Deus: “Todo
aquele que se exalta será humilhado, e todo
aquele que se humilha será exaltado”.
Deus humilha os “orgulhosos” derrubando-os
de suas elevadas posições a fim de
chamá-los à conversão. A busca
do poder, do dinheiro, da fama, do prazer, do luxo,
dos elogios e das honrarias Deus não suporta, “o
que os homens exaltam, Deus detesta. Deus dá o
seu Reino àqueles que não se gabam
de suas próprias ações e grandeza,
mas antes esperam humildemente a força de
Deus para cumprir fielmente sua vontade, considerando-se
apenas servos no projeto do Reino” (Lc 17,7-10).
Os que se justificam a si mesmos não podem
encontrar a justificação, mas somente
os que se humilham perante Deus com coração
contrito (Lc 18,9-14). Jesus mesmo se designou como “humilde
de coração” (Mt 11,29) e nos
convida a todos para que sigamos seu exemplo de mansidão
e humildade. Jesus exige que a humildade perante
Deus seja traduzida em serviço humilde prestado às
pessoas, e motivados apenas pelo amor, imitando em
sua condescendência o Pai do Céu. Para
isso temos que nos espelharmos nEle, cuja vida e
morte foram um serviço de amor até o
extremo. A lógica do mundo sofre uma reviravolta.
Na comunidade dos discípulos, “se alguém
quiser ser o primeiro, seja diante de todos o último
e o servidor de todos. Jesus moldou sua vida à luz
do humilde “Servo de Deus” anunciado
por Isaías: “Foi ele quem levou as nossas
enfermidades e carregou sobre si as nossas doenças”.
Não apenas Jesus sofreu expiando os nossos
pecados, mas, curando os doentes, revelou-se o Salvador
que resgata os pecadores. Nele, a lógica bíblica,
a lógica de Deus revelou-se plenamente e alcançou
a perfeição. De fato, ele tomou sobre
si a humilhação extrema, ele se rebaixou,
tornando-se obediente até a morte, e morte
de cruz. Por isso, Deus o exaltou soberanamente (Fl
2,8). Ele, que não veio para ser servido,
mas para servir, entregou a vida por todos como preço
de resgate (Mc 10,45 e par.). Seu nascimento, sua
vida pública, seu jeito de se relacionar e
sua entrada messiânica em Jerusalém
ficaram caracterizados pela humildade. Sua pessoa,
bem como sua mensagem, dirigiu-se antes de tudo aos
pobres e oprimidos, aos famintos e tristes, aos pequeninos
deste mundo, aos últimos e as crianças,
trazendo a quem o pão a quem o conforto, a
quem a cura a quem o perdão, a quem a luz
da palavra a quem a bênção da
reconciliação, a quem a dignidade a
quem a liberdade; trazendo a todos a alegria da salvação.
As bem-aventuranças do Sermão da Montanha
prometem aos pobres o Reino de Deus. Lucas em sua
narrativa olha mais para o lado social desta pobreza,
Mateus mais para a mentalidade de pequenez perante
Deus. O Reino de Deus só pode ser acolhido
por aqueles que sabem que são tão pequenos,
fracos e baixos como por natureza o são as
crianças, isto é, se são humildes.
Os episódios da infância de Jesus narrados
por S. Lucas são a ponte que liga a piedade
vétero-testamentária à do NT.
Seus protagonistas pertencem aos “mansos da
terra”, aos humildes, que esperam a “consolação
de Israel” (Lc 2,25). Maria, que com seu cântico
se inspirou na doutrina do AT sobre os humildes,
com sua vida concretizou os ensinamentos de seu Filho
que guardava como tesouro precioso no sacrário
de seu coração.
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