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Em
Fátima, aos pés
da Virgem Maria – Final
João Carlos Pereira
A viagem à Cova da Iria estava cercada de
expectativas. Afinal, como contei, na semana passada,
fui lá num tempo em que a fé católica
não havia dominado a minha vida e quem visitava
Fátima era um turista. Nessa condição,
vi a capela das aparições, o imenso
pátio e a basílica. Coloquei-me diante
de monumentos erguidos pelo homem. Agora, nada disso
mais me importava. Estava em busca da fé.
Assim como as aparições de Lourdes,
as de Fátima também mexeram com a crença
das pessoas. A necessária prudência
da Igreja não aceitou (e nem deveria) o fato,
a partir de sua primeira notícia. Mas não
tardou para que o mundo soubesse que Nossa Senhora
havia se manifestado, em doçura, pureza e
sorriso, a pessoas que traziam o coração
livre do pecado. Os dois pastorinhos, Jacinta e Francisco,
foram declarados beatos da Igreja e caminham para
a santidade. Lúcia, que morreu há pouco
tempo, também deve ser beatificada e, depois,
canonizada. Bernadette Soubirous, que, como Lúcia,
seguiu o caminho do convento, já mereceu a
glória dos altares. Eram todos crianças
simples, filhos de gente humilde e de muita fé.
As aparições de Nossa Senhora guardam
uma permanente lição. É preciso
entender a quem Ela quis se manifestar. Não
procurou autoridades religiosas, nem sábios,
nem gente importante ou criaturas que tivessem credibilidade.
Atrás de quem a Senhora foi? Justamente de
crianças. De gente miúda. No caso de
Bernadette, miúda e um tanto aérea.
Foi com eles que Maria desejou se comunicar para
dizer ao mundo da necessidade da oração.
O nosso Jesus, por acaso, quando escolheu os menos
qualificados (do ponto de vista do mundo) para segui-Lo,
no apostolado, não agiu de idêntica
maneira? Diante da capela das aparições,
uma construção moderna, feita de concreto
e vidro, consigo esquecer que aquele espaço
nada tem a ver, esteticamente, com o conjunto e fixo
meu olhar na imagem da Senhora. Ela foi colocada
no mesmíssimo local onde havia um arbusto,
sobre o qual foi vista, flutuando numa nuvem. Dizem
que, após a confirmação da veracidade
dos fatos, muita gente quis levar para casa uma folhinha,
um ramo, um galho, qualquer coisa que houvesse sido
tocado pela Senhora. Era tanta gente querendo um
pedacinho que, mesmo que fosse uma sumaumeira, não
teria resistido. Em dois tempos a planta acabou e
restou somente o local sagrado. Pois é lá que
está a imagem, protegida por uma caixa de
vidro, com sua fisionomia triste e um mundo de almas
a seus pés. O primeiro momento me fez sentir
um aperto no peito. Apavorado com minhas safenas,
pensei que poderia estar tendo um ataque do coração.
Me ajoelhei, respirei fundo e comecei a chorar. Emília,
minha mulher, sabe que, nessas horas, a única
coisa a fazer é me deixar quieto. Carinhosamente,
ela passou a mão em minha cabeça e
ficou me observando. Estávamos no meio de
uma multidão. Aos poucos a dor foi passando
e a emoção tomava conta de mim. Fiquei
assim por muito tempo. Quando a missa acabou, me
aproximei da imagem e procurei ver, na coroa, onde
estava a bala que atingiu o papa João Paulo
II, num dia 13 de maio. Não vi a bala, que,
anos depois, o Sumo Pontífice levou àquele
local, como forma de agradecer à Virgem Maria
pela proteção. Mais horas passamos
em Fátima. Na Basílica, ainda conseguimos
receber a Comunhão. Depois, ao encontrar os
sogros, assistimos a mais uma parte da missa. Não
muito longe dali, numa praça onde se acendem
velas, deixamos cinco círios. Em Lourdes,
aprendi que, quando se acende uma vela, a oração
continua subindo aos céus, na forma de uma
chama, até que a cera seja consumida. É como
se a vela prosseguisse, pelo fiel, a oração.
O calor é intenso, porque milhares de velas
ardem ao mesmo tempo. Algumas queimam tão
rapidamente, que a pessoa nem bem terminou de rezar
e a vela já acabou. Mas isso não importa.
Deus escuta nossas orações antes mesmo
que as pronunciemos. Nossa Senhora intercede por
nós, sem que sequer tenhamos pedido ajuda.
De volta para casa, trouxe a sensação
de que já não era mais a mesma pessoa.
Não era e nem poderia ser. Lugares sagrados
têm o poder de alterar o eixo da alma e de
aumentar a dimensão da fé. Poder estar
no mesmo local onde a Virgem Maria apareceu e, de
uma certa forma, perceber a maravilhosa presença
da Mãe de Deus, é motivo para viver
eternamente de joelhos, agradecendo ao Senhor por
nos haver dado a Senhora como mãe. João
Carlos Pereira é professor universitário,
jornalista e membro da Academia Paraense de Letras.
jcparis@orm.com.br
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