Psicologia e Graça

     Mons. Aderson Neder
     Sacerdote Diocesano

      A pessoa humana, segundo o plano divino, tende à perfeição. Nessa perfeição está subentendida a unidade. A divisão não conduz à perfeição. Os fracassados e conseqüentemente infelizes o são porque não conseguiram a realização da própria unidade ou não lutaram por ela. Por isso, a dualidade vivencial é uma grande derrota na vida humana e representa, de fato, um autêntico aniquilamento. Procurando o que seria a condenação humana, que na religião denominamos de inferno, percebemos claramente que a desgraça definitiva do homem está nessa dualidade existencial: ele tende naturalmente para Deus, porque assim foi criado, mas se vê condenado a nunca realizar essa união com Ele, porque ficou dele definitivamente separado. Para que o homem consiga atingir Deus, como seu destino eterno, o próprio Senhor lhe dá a chance de tê-Lo, já neste mundo, como seu companheiro de vida, de compartilha vivencial que a teologia, apoiada em São Paulo, denomina Graça. Essa união santificadora entre Deus e o homem é não só importante, mas essencial na vida cristã, porque o núcleo desta é precisamente essa união de vida. Não viver a Graça é optar por uma negação da própria santificação que é consequência natural da vida cristã. Por isso a teologia chama a Graça de santificante. Conseqüentemente a essa verdade da vida espiritual, todo cristão, até mesmo para merecer esse nome, deveria viver na Graça santificante, ou seja, conservar em si, na alma e no cor-po, a presença santíssima de Deus. Esse é o grande e, sem dúvida, o maior esforço ascético que todo batizado deveria desenvolver em toda a sua vida. Infelizmente isso nem sempre acontece. Para usar uma terminologia bastante popular, há os que vivem em estado de graça e o que vivem em estado de pecado, denominado mortal precisamente porque não permite viver com Deus. Nesta reflexão, gostaria de chamar a atenção para o aspecto psicológico dessa presença e dessa ausência, porque tanto uma como outra são causa primeira da nossa felicidade (graça) ou da nossa infelicidade (desgraça). A presença de Deus na pessoa humana tem um efeito psicológico positivo ou negativo se é ausência. Não esquecer que aqui se está no campo da fé. É esta que nos dá a certeza da presença ou da ausência. Olhando mais para o aspecto positivo, se creio verdadeiramente que Deus Uno e Trino está na pessoa humana - repito, no corpo e na alma -, esta se sentirá “habitada” por Ele, o que lhe dá não só uma sensação, mas a certeza fiducial de segurança vivencial. Em todos os momentos de sua existência, quem tem a Graça nunca se sente só, pois Deus convive consigo, não só nos momentos mais importantes da existência, mas igualmente os pequeninos atos, os mais corriqueiros, os mais banais, que deixarão de ter uma dimensão ínfima, para se tornarem infinitos, por passarem a ser também atos de Deus. Saber dessa realidade, a fé cresce e se plenifica, pois a Providência, a Misericórdia, o Amor ou mesmo o Perdão, quando necessário for, não são mais que uma teoria, mas uma prática da fé. Vivendo na segurança divina, mais do que nunca o cristão em Graça percebe a Presença amorosa do Senhor, que o acolhe, o sustenta, o orienta, o fortifica e o deixa perceber continuamente o seu Amor sem medida. Quantos exemplos bonitos que vemos em tantos irmãos e irmãs que, muitas vezes são desprovidos de bens materiais até mesmo os mais necessários para a sobrevivência, mas que demonstram ter um Vida superabundante que vem de dentro do ser e os faz totalmente alegres, porque felizes. O outro lado da medalha já é sobejamente conhecido. Quem se entrega ao pecado e quando este lhe endurece o coração, quanta tristeza demonstram, mesmo em momentos naturalmente alegres, porque sentem terrivelmente a citada ausência do Hóspede divino. Pior situação é quando o pecado já lhes petrificou tanto a alma que nem lhes permite mais sentir que algo, o Essencial, está faltando em suas vidas. A Misericórdia divina não força a liberdade, mas quando percebe que há algum esforço para quebrar o invólucro do pecado, bem que dá uma ajuda e a ressurreição acontece. Já tive a alegria intraduzível de ver irmãos ou irmãs nesse processo de ressurreição. Muitas vezes o Senhor já usou de mim para ser o ministro do perdão. Como é lindo ver um irmão ressurgir! Como causa felicidade ser testemunha de que um irmão conseguiu deixar a situação de “cadáver ambulante” e descobrir que a Vida só tem sentido verdadeiro quando Deus a compartilha com a sua Presença divina! O céu é a posse definitiva de Deus. É o abraço eterno do Senhor com sua criatura que Ele ama em dimensão infinita. É a plenitude da felicidade. No entanto, se quisermos, esse céu começa aqui! Já podemos ser felizes!


 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 



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