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Os Últimos
Dias de Hitler
Pedro Veriano
Em abril de 1945, o ditador alemão
Adolf Hitler confinou-se num bunker, em Berlim, sabendo
que os russos estavam às portas da cidade e
que a guerra (a 2ª Mundial) estava perdida para
o seu lado. Até então o chefe nazista
apregoava que o regime imposto por ele em 1933 seria
invulnerável por mil anos, e que a supremacia étnica,
uma de suas bases, edificaria uma nova história
mundial. Os últimos dias desse homem que deixou
milhares de mortos em sua tenebrosa carreira política
foram pouco divulgados. O livro do historiador Joachin
Fest e as memórias da secretária do ditador,
Tradi Jungem, deram uma luz ao desespero do füeher
em seus derradeiros momentos. Estas obras literárias
foram adaptadas para o cinema por Bernd Eickinger que
produziu para o diretor Oliver Hirschbiegel o filme “A
Queda” (Der Untergang/ Alemanha, Áustria,Itália,
2004) ora em exibição nos cinemas de
Belém. A obra cinematográfica impressiona
por sua tendência à fidelidade histórica.
Assemelha-se a um documentário dos últimos
momentos do chamado 3º Reich. Numa composição
convincente o ator Bruno Ganz vive um Hitler envelhecido,
parkinsoniano (esconde as mãos trêmulas),
irritadiço e ao mesmo tempo afável, querendo
algumas vezes disfarçar a amargura da derrota
numa esperança infrutífera e, por fim,
na opção por não fugir e não
se deixar aprisionar pelos inimigos, preferindo o suicídio
e providenciando o destino de seu corpo, assim como
o de sua mulher, Eva Braun (com quem se casou no civil
horas antes de se matar). Quem já viu dezenas
de filmes sobre a guerra, sobre o holocausto, sobre
as figuras de proa do regime nazista, surpreende-se
como ainda pode haver originalidade na abordagem histórica.
Este “A Queda” é um outro ângulo
do fim de uma era de triste lembrança. A máscara
do homem que se achava todo-poderoso e que sempre esperava
reverter situações a seu favor, é impressionante.
O filme consegue repassar esta impressão aos
espectadores. Muito bem narrado, com um elenco exemplar,
deixa a idéia dos acontecimentos reais. É uma
verdadeira aula de história, abrangendo nas
seqüências em que se vê uma cidade
arrasada, com o povo mendigando nas ruas e soldados
matando civis sem piedade, o grau de maldade que patrocinou
os fatos, o horror vivido pelo cidadão comum.
Outro filme em cartaz que merece ser visto é diametralmente
oposto em termos de conteúdo: “O Castelo
Animado”, desenho de longa metragem dirigido
por Hayao Miyazaki, o mesmo de “A Viagem de Chihiro”.
Nesta realização trabalhosa, feita em
2D, ou seja, sem os recursos tridimensionais da computação
gráfica (tipo “Shrek” e “Madagascar”),
a inspiração é um livro inglês
escrito por Diane Wynne Jones e ambientado na França
do início do século XX. Conta a história
de Sophie, uma jovem de 18 anos que é encantada
por uma bruxa por gostar de um feiticeiro chamado Hauru.
O encanto faz da mocinha uma anciã quase centenária.
Mas ainda assim capaz de proezas físicas impressionantes,
como desenterrar um espantalho preso por galhos de árvores,
fato que a levará ao contato de um outro amigo
mágico, mais tarde revelado um príncipe.
No caminho da heroína surge o castelo do título,
um prodígio arquitetônico que se move
usando pernas mecânicas, e tipos que vão
de uma bruxa que se transforma em uma senhora pacata
a uma labareda que se intitula Calcifer, ou um “fogo
falante”. O enredo não é de fácil
entendimento por crianças pequenas. Mesmo a
metragem do filme consome exatamente duas horas, muito
para os pequenos espectadores. Mas é justo que
os adultos apreciem o gênero “animação”.
Há muito que ver nas cenas e por trás
das cenas. Além dos bons propósitos,
como o de não haver um vilão cruel sugestivo,
as lições de ajuda ao próximo,
a exaltação dos valores do afeto, a visão
cambiável da beleza de acordo com as emoções
da pessoa amada. Um filme muito bonito, revelando mais
uma vez o talento e a capacidade de trabalho da equipe
de Miyazaki, sempre a mesma e sempre disposta a acertar
fazendo plantão no pequeno estúdio para
realizar filmes que exprimem determinadas culturas
(no caso uma boa mistura da oriental com a ocidental).
Outro bom programa da semana foi “Clean” (Canadá/França,
2004) do diretor canadense Oliver Assayas. Em foco
um roqueiro decadente e viciado em drogas que sucumbe
a uma overdose. A mulher dele também é viciada
e se propõe a mudar de vida pensando no filho
de 6 anos que é criado pelos avós paternos.
Mas o avô do menino diz que para ela obter a
tutela da criança precisa arranjar um bom emprego
e demonstrar que não é mais toxicômana.
Perambulando pela Europa sem conseguir entrar no mercado
de trabalho onde atuou (da música) a mulher
sofre maus bocados até conseguir o seu intento.
O roteiro do próprio diretor exalta o amor materno
e a capacidade das pessoas em dissipar suas angústias
e seguir um bom caminho. Esses bons propósitos
são conseguidos sem o ranço melodramático
que poderia destruir a boa intenção.
Passa um filme realista pousado em sentimentos nobres.
E mostra uma excelente atriz, Maggie Cheung, premiada
no Festival de Cannes por seu papel. Em cartaz, também, “A
Ilha” (The Island/EUA, 2005). Ficção-científica
ambientada em 2015 quando uma organização
espalha o boato de que o mundo está inteiramente
contaminado pela poluição e existe uma
ilha onde a natureza foi preservada em toda a sua beleza.
Só que os candidatos a morar na ilha são
clones de pessoas que pagam caro por órgãos
a serem transplantados. Quando havia sobra de clones,
inventava-se a viagem à ilha, na verdade uma
forma de eliminar os seres como os nazistas faziam
com os judeus durante a 2ª Guerra Mundial (coincide
a aproximação dessa história com
a abordada no filme “A Queda”). Apesar
de boa, a idéia não é nova. Existiu
em “Blade Runner, Caçador de Andróides” e,
no caso da fuga de um casal que descobre a trama dos
dirigentes do lugar, “THX-1138” e “Fuga
do Século 23”. Uma velha preocupação
do gênero com a aplicação da ciência
no sentido da opressão, por sua vez ligada à ambição.
Uma pena que se volte a condenar o que é novo
como maléfico e que se subtraia as boas idéias
por elementos comuns dos chamados “filmes de
ação”, onde os computadores trabalham
mais do que os artistas, produzindo festivais pirotécnicos
para enganar quem paga ingresso.
(veriano@supridados.com.br)
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