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Lutando pela vida
Pedro
Veriano
Impressionante o filme “Menina de Ouro” (Million
Dolars Baby/EUA,2004) de Clint Eastwood. Narra a história
de uma jovem garçonete, órfã de
pai, desprezada pela mãe, irmã e irmão,
que se aproxima de um velho treinador de boxe, Frankie
Dunn, pedindo que ele a treine para ser lutadora. O
treinador calejado não quer aceitar a tarefa,
mas a insistência da moça leva-o a tolerar
e depois a tomar conta da carreira dela. Aparentemente
o filme é “mais um” sobre um esporte
que no próprio filme consideram “inatural” (sic).
Mas do meio para o fim muda de rumo. Eu não
devo contar o que acontece, mas o argumento passa para
um fato polêmico, e a luta de boxe passa a ser
vista não apenas como uma modalidade esportiva,
mas como a batalha pela vida. Há três
leituras a se fazer: primeiro a documentação
esportiva, apresentando seqüências de boxe
muito bem colocadas (a atriz Hilary Swank chegou a
ganhar hematomas e ferir seriamente as narinas durante
um desses treinos). Depois a aproximação
do treinador (Clint Eastwood não escondendo
os seus 74 anos) com um padre católico amigo.
O treinador é irlandês e diariamente vai à igreja.
Ele sempre questiona assuntos de fé e não é levado
a sério pelo sacerdote (o que parece uma atitude
negativa do próprio roteiro). Finalmente um
drama e a posição deste treinador diante
dele. Um drama que envolve uma vida. No filme e livro “They
Shoot Horses, D’Ont They?” (“Eles
Matam Cavalos, Não Matam? aqui chamado “A
Noite dos Desesperados”) uma maratona de dança
nos anos 30 evidencia o terror que se espalhou em certa
classe social durante a depressão econômica,
com pessoas morrendo de tanto dançar (se matam
cavalo doente também os seres humanos merecem
ser sacrificados quando sofridos). A comparação
com o irracional chega na própria irracionalidade
do quadro vivido, ou seja, da época em que muitos
se matavam por terem perdido fortunas em poucas horas.
Basta dizer que no filme o herói se defronta
com um caso em que alguém pede o golpe de misericórdia
que se dá ao cavalo de pata quebrada. Mas em
se tratando de seres humanos, nenhuma religião
aceita a morte como o fim de um sofrimento. Nem a ciência.
No caso da queda da bolsa no fim dos anos 20 alguns
se recuperaram; no caso de enfermidades, surgem remédios
salvadores. E a fé aceita o sofrimento. Os mártires
santificados deixaram as suas vidas como lição.
Você pode condenar o filme por algumas soluções,
mas deve levar em conta que ele mostra muito bem o
caminho da dor e como esta dor pode passar de um para
outro “doente” mesmo que um queira fazer
o bem a outro. Isto em termos de conteúdo, saindo
do livro “Rope Burns: Stories from the Córner” escrito
pelo empresário de boxe Jerry Boyd e de um roteiro
para cinema de Paul Haggis. Em termos de realização
só há o que aplaudir. Eastwood dirigindo
mostra-se cada vez mais talentoso, narrando pausadamente,
sem mexer muito com o tempo de ação,
a história da menina que poderia valer o milhão
de dólares do titulo original. Hilary Swank é candidata
ao Oscar de atriz e já mereceu esta honraria
uma vez, por “Meninos Não Choram”,
onde ela faz o papel de uma garota que para vencer
numa profissão precisa passar por homem. Ela
pode repetir a façanha. Já mereceu o
Globo de Ouro da categoria. Seu desempenho comove.
Como o do comparsa também diretor e de Morgan
Freeman como um velho “boxeur”, cego de
um olho por causa da última luta em que participou,
o narrador da história e um observador atento
(e sentimental) dos acontecimentos. É filme
para ver e discutir. Também para ver e discutir,
mas de outro ângulo, é “O Aviador” (The
Aviator/ EUA, 2004) de Martin Scorcese. Quem conhece
cinema pelo menos ouviu falar de Howard Hughes. Bilionário
desde a infância, quando herdou do pai a patente
da fábrica de brocas para perfuração
de poços de petróleo, o jovem texano
Howard cursou as melhores escolas e transformou-se
num apaixonado pela aviação e pelo cinema.
O roteiro e Josh Logan com base em uma das muitas biografias
do personagem, prefere explorar a parte dedicada à aviação.
Hughes foi o criador do avião Hercules, inicialmente
um poderoso aparelho de oito motores de pistão,
e do Constelation, conhecido pelos brasileiros que
viveram os anos 50 (era o quadrimotor que fazia a linha
Belém-Rio-Belém com o selo da Panair
do Brasil) .A sua luta contra o monopólio de
viagens internacionais desejado pela Pan American contra
a sua TWA ocupa boa parte do filme. Também os
seus romances com as atrizes Katherine Hepburn e Ava
Gardner. Na realidade Hughes foi casado com Ella Rice
de 1925 a 1929, com Jean Peters de 1957 a 1971 e com
Terry Moore, sem datas precisas. Nenhuma das esposas é mencionada
em “O Aviador”. Como a parte de cinema
deixa de lado a participação do bilionário
na RKO Radio, companhia que ele comprou e através
da qual participou como produtor de muitos filmes.
Dessa fase, aliás, só há menção
do namoro com a jovem Faith Domergue, moça de
16 anos que ele descobriu e para quem fez um filme
modesto e esquecido chamado “Vendetta”.
O filme de Martin Scorcese é muito omisso. Não
diz boa parte do que fez e deixou de fazer o controvertido
cineasta & industrial. O realce fica por conta
da luta que ele travou contra um senador que tentou
impor a hegemonia das linhas aéreas. Mas apesar
disso, e em se tratando de uma superprodução
que consumiu mais de 100 milhões de dólares,
o trabalho do diretor de “Touro Indomável” é bom.
E deve-se muito ao empenho pessoal de um dos produtores,
o ator Leonardo Di Caprio. Muito diferente de Hughes
nos primeiros anos (com bigode, no final, ele até que
fica parecido), o intérprete de “Titanic” empenha-se
ao máximo para dar veracidade ao papel. E chega
a brilhar em algumas cenas, como o momento em que é acometido
do primeiro acesso de uma síndrome de obsessão
que o leva a trancar-se por dias em um quarto, tomando
apenas leite. O filme é o favorito para o Oscar
deste ano. Longo, faustoso, é produto da grande
indústria do cinema. Nada de obra-prima, mas
um esforço interessante. O pior é mesmo
deixar um mínimo sobre uma personalidade complexa,
no caso diminuída a ponto do estereótipo
comum dos heróis americanos cinebiografados.
(veriano@supridados.com.br)
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