A alegria de ser católico

A festa de Lourdes e palavra do Papa, no tempo da Quaresma -
1ª parte

    João Carlos Pereira

    Daqui a alguns dias, a Igreja dará início ao tempo da Quaresma, lembrando ao homem que ele é pó e que ao pó haverá de retornar. Daqui a alguns dias, também, a Igreja se curvará, mais uma vez, diante da delicada imagem de Nossa Senhora de Lourdes, cuja primeira aparição a Bernadette Soubirous aconteceu no dia 11 de fevereiro. Os dois acontecimentos - a chegada da Quaresma e a festa de Senhora de Lourdes - recordam o imenso amor de Deus para com seus filhos e mostram que o homem é, e sempre será, o centro das atenções do Criador. Este ano, em sua mensagem ao mundo cristão, o Papa - com uma impressionante antecedência de cinco meses (o texto está datado de 8 de setembro de 2004!) - destaca o papel do homem idoso na sociedade e nos convida a refletir sobre o tema que, a cada dia, se torna uma realidade no mundo: o envelhecimento. Na Europa, há muito tempo que há menos jovens do que idosos. No Brasil, uma recente pesquisa do IBGE mostrou que a população está envelhecendo. Assim, não tardará muito para que o país também atravesse a linha da juventude e comece a caminhar rumo à terceira idade. Sobre esse processo - não o brasileiro, mas universal - Sua Santidade é claro: “A vida do homem é um dom precioso que se deve amar e defender em todas as suas fases. O mandamento “Não matarás!” pede que ela seja respeitada e defendida sempre, desde o seu início até ao seu fim natural. É um mandamento que é válido também na presença de doenças, e quando o enfraquecimento das forças limita o ser humano nas suas capacidades de autonomia. Se o envelhecimento, com os seus inevitáveis condicionamentos, for aceito com serenidade à luz da fé, pode tornar-se ocasião preciosa para compreender melhor o mistério da Cruz, que dá sentido pleno à existência humana”. Aos 84 anos, 26 dos quais à frente do comando da Igreja, João Paulo II - que, na semana passada, nos deu um susto enorme - tem sido, para a humanidade inteira, um símbolo da resistência e do valor dos homens com mais idade. Como mantém viva e brilhante a luz de sua inteligência, o Papa continua a orientar a Igreja. Seus limites físicos, contudo, que já o prenderam a uma cadeira de rodas, foram insuficientes para determinar o final de seu reinado. Não gosto muito da palavra reinado e prefiro ver a missão do Papa como uma espécie de “patriarcado”. Ele age como pai de todos nós, católicos, e não como o rei. Os reis passam. Os pais, não. João Paulo II não passará. Com a força do exemplo vivo, o Papa apela ao mundo, dizendo que “é preciso fazer crescer na opinião pública a consciência de que os anciãos constituem, em qualquer caso, um recurso que deve ser valorizado. Por conseguinte, devem ser incrementados os apoios econômicos e as iniciativas legislativas que lhes permitam não ser excluídos da vida social. Na verdade, nos últimos decênios a sociedade tornou-se mais atenta às suas exigências, e a medicina desenvolveu curas paliativas que, com uma aproximação integral do doente, demonstram-se particularmente benéficas para quem permanece longamente hospitalizado”. A impressionante resistência física do Papa é uma lição para o mundo. Imagino que deva viver cercado de cuidados especiais e que tenha à sua disposição médicos zelosos e medicação adequada. Todavia, em momento algum fui tentado a pensar que, mesmo tendo que enfrentar algumas cirurgias delicadíssimas, João Paulo II esteja vivo e intelectualmente ativo apenas por causa da medicina. A proximidade daquilo que o próprio Papa chama de “meta final” acontece cercada pela consciência de que os homens têm uma missão a cumprir. Não se leva em consideração o grau de importância da missão, mas a verdade é que o Senhor não nos mandou a este mundo para vivermos como se estivéssemos a passeio. A missão do Papa, em especial a do papa João Paulo II, continua sendo dificílima. Suas palavras, na mensagem da Quaresma, são claras: “O maior tempo disponível nesta fase da existência oferece às pessoas idosas a oportunidade de se confrontarem com interrogativos fundamentais, que talvez tenham sido descuidados antes, devido a interesses urgentes ou, contudo, considerados prioritários. A consciência da proximidade da meta final leva o idoso a concentrar-se sobre o que é essencial, dando importância àquilo que o passar dos anos não destrói. Precisamente devido a esta sua condição, o idoso pode desempenhar um papel na sociedade. Se é verdade que o homem vive da herança de quem o precedeu e o seu futuro depende de modo determinante da forma como são transmitidos os valores da cultura do povo ao qual pertence, a sabedoria e a experiência dos anciãos podem iluminar o seu caminho pela via do progresso, rumo a uma forma de civilização cada vez mais completa”. Ainda há muito que aprender com os ensinamentos do Sumo Pontífice, em sua breve, porém riquíssima mensagem da Quaresma. Na próxima semana, ainda tendo por base as palavras de João Paulo II, retomo o assunto. Que Nossa Senhora de Lourdes, mãe de Deus e da Igreja, possa nos auxiliar a compreender melhor a mensagem do sucessor dos apóstolos de seu filho Jesus, a quem ele, neste mundo, tem a missão de representar.


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