Carne, vale! ou... carnaval

 

     Ivens Coimbra Brandão

    Enquanto nas grandes cidades brasileiras, os eventos mais concorridos do carnaval se desenvolvem sob feérica iluminação, a sua origem ainda permanece sob a penumbra da dúvida. Também não é precisa a procedência da palavra carnaval. A enciclopédia Barsa, edição de 1970, cita Petrocchi, que vai buscar no baixo latim o vocábulo carnelevamen, depois modificado para carne, vale! Segundo parecer do professor Artêmio Ferreira, da UFPA, o baixo latim foi gerado pelo processo de perda de identidade do idioma, com o desmoronamento do Império Romano, diante a invasão dos bárbaros celtas e iberos. Assim, “carne, vale!” pode ser traduzido como “saudação de despedida”, “final de festa da carne e início de penitência”: adeus, carne! De fato, quando o calendário marca o término dos últimos três dias de folia, tem início a Quaresma, que é o período de quarenta dias de recolhimento e penitência, que antecedem a celebração da Páscoa. Percorrendo os meandros da história, é ainda a Barsa que cita como origem do carnaval, dentre outros, os festejos populares da Antigüidade conhecidos como as saturnais romanas. Na Idade Média ocorriam as festas dos “inocentes” e dos “doidos”, que com o decorrer do tempo sofreram transformações ou mesmo abrandamentos, originando os carnavais dos tempos modernos, chegando às importantes cidades da Europa como Paris, Roma, Veneza Munique e Nice dentre outras, sendo nesta última caracterizado pela apresentação de grandes máscaras. Mas foi no Brasil que o carnaval encontrou particular acolhida: sem dúvida que a miscigenação racial foi o pólo catalisador, encontrando no mulato o vigor físico herdado do ascendente negro, facultando uma coreografia exuberante, sob um ritmo forte e insinuante, marcando sobremaneira a origem de um importante fator na etnia do povo brasileiro. Também se manifestam fortes traços do sincretismo religioso, deixados pelo escravismo. O ritmo é gerado exclusivamente por instrumentos de percussão, enquanto a cantoria percorre o espaço entre o vibrante e o dolente. E tudo é carnaval, com a participação de herdeiros de todas as raças, formando desde os modestos blocos de “sujos”, passando pelas festas em clubes, até a apresentação nas monumentais “escolas de samba”, que congregam milhares de figurantes, se constituindo atração turística, em especial na cidade do Rio de Janeiro. No mais, tudo é amplamente divulgado... Daí porque oportuno seja visitar o túnel do tempo, fazendo parada na Belém da década dos anos 50, quando a então pacata cidade reunia na Praça da República os mais importantes eventos do carnaval: ali ficavam as sedes dos principais clubes, como a Assembléia Paraense, com o já tradicional “baile das máscaras” na Segunda-feira gorda; mais adiante a Tuna Luso Comercial, hoje Tuna Luso Brasileira; e onde se situa o Hotel Hilton, lá estava o Grande Hotel, com o seu amplo salão - o Pálace Thèatre - local de realização das festas do Bancrévea, com o também tradicional encerramento na Terça-feira gorda. Ali próximo, logo no começo da Avenida Nazaré, ficava a sede do Pará-Clube, que animava seus convidados “até o sol raiar”. Também na Praça da República, se realizavam os desfiles dos blocos e escolas de samba, chamados que eram de “batalhas de confete”, tudo em harmonia com a realização das festas de salão: era comum a fila de automóveis de onde desciam para as festas nos salões, homens e mulheres em traje “a rigor” ou “fantasia condigna”, que manobravam cuidadosamente entre os brincantes de rua, enquanto estes se divertiam a céu aberto nas batalhas de confete. Na parte da tarde, os que tinham carro - e não eram muitos - não dispensavam participar do “corso” que era o vai e vem de carros em fila, ao longo da Praça da República e Av. Presidente Vargas, ficando a cargo dos “mascarados” divertir a garotada que assim podia participar em parte do chamado carnaval de rua. Mas nem todos participam da folia dos últimos três dias do carnaval. Justamente nas grades cidades, é comum sejam os dias feriados aproveitados nos balneários ou mesmo sítios localizados no interior. Outros preferem ficar em casa, colocando em dia a leitura, ou levando a cabo tarefas de manutenção da casa ou apartamento. Nos anos anteriores já vinha acontecendo, mas também neste, muitas pessoas aqui em Belém estarão trocando a iluminação feérica das passarelas pela luz que ilumina a partir do interior, em sincero encontro consigo mesmo e na busca de Deus, de tal forma a dar o devido sentido na caminhada junto com seus semelhantes.

Nota:
O texto acima foi atualizado, tendo sido publicado pela primeira vez em “O Liberal”, edição de 26.02.01. Também integra a coletânea “Cento e vinte encontros”, de autoria do articulista.

Fone: 223-8484;
ivenscb@amazon.com.br


Clique aqui para imprimir esta notícia...

 



Página inicial.