Os limites da vida diária

 

     Psicóloga Lúcia Abreu

    A segurança afetiva numa criança funciona como uma energia positiva que torna felizes e saudáveis as relações familiares. Mesmo assim, essas relações podem ser afetadas por muitos problemas práticos do dia-a-dia. Para que elas sejam não só amorosas, mas harmônicas, gostaria de discutir a importância de uma lei da casa. Ou o problema da consistência de disciplina. O que significa consistência de disciplina? Significa a gente ter o mesmo tipo de atitude frente às mesmas situações. Se para cada dez vezes que o meu filho pede bala antes do almoço e eu digo “Está bem”, então eu sou consistente. Se para cada dez vezes eu digo “Não, bala antes do almoço tira o apetite”, eu também sou uma pessoa consistente. Entretanto, se para cada dez vezes que ele me pede, quatro eu reclamo mas deixo, duas eu grito e dou um tapa e proíbo, outras três eu finjo que não escuto e a última eu dou e digo “Coitadinho, você merece, você é muito bonzinho”, então eu estou sendo uma pessoa inconsistente. Inconsistente comigo mesma. O que acontece se eu sou inconsistente? Em primeiro lugar o meu filho fica muito inseguro porque ele nunca pode prever o que vai acontecer. A segurança é ligada a previsibilidade. A previsibilidade implica ser capaz de controlar; o que é imprevisível é incontrolável, não posso me preparar para enfrentar, então o nível de ansiedade aumenta muito. Recapitulando, a primeira conseqüência de sermos inconsistentes é que nossos filhos ficam inseguros porque a vida torna-se imprevisível. A segunda conseqüência da gente ser inconsistente é que o filho fica teimoso e chato, porque se ele percebe que em cada dez vezes que ele pede algo, quatro ele consegue, com isso ele está tendo reforço intermitente - é o tipo de reforço que mais fortalece o comportamento. Nós estamos ensinando para ele que, se tentar muito, se for muito persistente, reclamar e teimar bastante, quem sabe ele acaba conseguindo. Portanto, estamos ensinando a criança que teimar, importunar, ficar em cima, reclamar e desobedecer são as melhores maneiras dela conseguir o que quer. Só que, se ele fica assim, além do relacionamento se tornar muito áspero, difícil e ser muito chato para nós, tem uma conseqüência negativa para a criança, que vai ser chamada de chata, teimosa, impaciente e daí para fora, desenvolvendo uma auto-imagem negativa. Outro tipo de inconsistência é entre pai e mãe, quando um fala uma coisa e o outro fala outra coisa. Logo a criança percebe e começa a se prevalecer da situação, muitas vezes a jogar mãe contra o pai e vice-versa, tentando tirar partido da discordância em benefício próprio. Por que pai e mãe freqüentemente discordam tanto em questões de educação e disciplina? Isso pode ocorrer quando pai e mãe foram criados de maneiras muito diferentes, tendo valores opostos. Ou, mais freqüentemente, quando existe uma desavença entre os dois, explícita ou implícita e eles estão brigando através da criança, fazendo dela um campo de batalha, cada um contrariando as ordens do outro. Então, como ser consistente consigo mesmo e com o cônjuge? Em primeiro lugar eu quero deixar claro que ninguém pode ser uma máquina de consistência absoluta; e que a inconsistência aumenta nos momentos de mais canseira, insatisfação afetiva, problemas, menos disponibilidade etc. Mas uma coisa que ajuda muito é pai e mãe pararem juntos para pensar e negociar quais são as regras que eles acham razoáveis para o funcionamento da casa. Quando a gente tem objetivos claros é mais fácil ser consistente em torno deles. Para encerrar, há ainda um aspecto ligado à disciplina que gostaria de mencionar. Uma criança ao crescer precisa desenvolver sua capacidade de lidar com os limites da realidade, de se ajustar às frustrações da vida diária. Isso ela aprende se as regras de sua vida diária forem adequadas. Numa educação excessivamente permissiva a criança cresce desprotegida e sem capacidade para lidar com frustrações. Numa educação excessivamente repressora, sente-se sufocada, não respeitada em suas necessidades básicas, e pode reagir com rebeldia ou submissão exageradas. Então, em última análise, todo esse assunto de consistência de disciplina tem que ser visto à luz do bom senso e do respeito ás necessidades básicas da criança-o que ela precisa aprender para enfrentar a vida com autonomia e segurança? Porque o objetivo final de toda educação é preparar os filhos para um dia não precisarem mais dos pais, para serem capazes de traçar sozinhos a rota de sua vida, construírem seu próprio destino.


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