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Sal da terra e Luz do mundo
Raul
Monteiro
“Vós
sois o sal da terra” (Mt. 5,13). Esta é uma
das passagens do Sermão da Montanha. Segue
logo após as exortações
das Bem-Aventuranças. Como todo o Sermão
da Montanha, esta afirmativa é de uma
profundidade muito grande para o entendimento
da mensagem do Cristo encarnado em Jesus. Trata-se
da primeira de uma série de afirmações
que compõem o Sermão da Montanha.
Sendo a primeira assertiva, é de caráter
amplo, considerando o homem em conjunto, dando
o sentido principal da vida do homem. É uma
comparação maravilhosa. O sal em
si não tem qualquer valor. Não é alimento,
não tem qualidade, destrói o paladar
e não tem outra serventia que não
a de ressaltar o sabor dos alimentos. É basicamente
um tempero. É indispensável à vida,
porém, em excesso é danoso. A água
nos tecidos vivos movimenta-se pelas diferenças
de concentração do sal. O corpo
humano retém a água devido ao sal
que contém; porque a célula preserva
uma concentração de sal. Colocado
na terra, a esteriliza. Em contato prolongado
com a pele, a destrói. Desaparece nos
líquidos. Por si mesmo, não vale
nada. Misturado, vem a ser a alma do mundo. A
vida não existiria sem o sal. Os alimentos
não teriam sabor. A própria terra
necessita certa quantidade de sal para produzir.
Por isso, somos nós o “sal da terra” Somos
todos como o sal: precisamos misturar-nos, interagirmos
com os outros e com o mundo e nossa potencialidade
só tem valor se for para temperar a vida.
A pessoa que vive dentro de si mesmo, egoisticamente,
com e para os seus pensamentos e o seu raciocínio,
torna-se um ser que destrói a terra onde
pisa. Misturada, interagindo com os outros seres,
mesmo em pequenas quantidades, torna-se capaz
de executar as grandes obras. Por si só nada
vale, mas, em conjunto, é quem dá sabor à terra. “Vós
sois a luz do mundo (Mt. 5,14)”. O Divino
Mestre disse que seus discípulos são
a luz do mundo e, portanto, hoje, nós
também somos a luz do mundo, o que quer
dizer que a essência de Deus está também
em nós, porque Deus é luz. “A
espiritualidade das pessoas consiste em que elas
façam a sua existência humana tão
pura e luminosa como a essência divina
e que disso precisam ser capazes de convencer-se
definitivamente”. A verdade, porém, é que
o ser humano não está separado
de Deus, não é idêntico a
Deus, mas é distinto de Deus. Esse “ser
distinto” de Deus, baseado no “ser
idêntico” pela essência e no “ser
diferente” pela existência, faculta
ao homem a divinização da sua vida,
sem o levar ao absurdo de ser Deus, garantindo-lhe,
assim, a responsabilidade ética dos seus
atos conscientes e livres. Se o homem é moralmente
bom, virtuoso, não é Deus que é bom
nele, mas é ele mesmo e se é moralmente
mau, pecador, não é Deus que é mau
nele, mas é ele mesmo. Quem pratica virtude
ou comete pecado é o homem existencial,
e não o homem essencial, é o elemento
humano nele e não o elemento divino”.
Se fizermos uma análise é possível
que possamos aguçar nossa consciência
e convencer-nos definitivamente de que a íntima
essência do nosso ser seja idêntica à essência
divina. Cristo é a luz do mundo, porque
ele é a essência divina em plenitude.
Já em nós humanos, a mesma luz
cósmica do Cristo existe, porém,
ofuscada pelas obras da carne, que são:
fornicação (relações
sexuais ilícitas), impureza, libertinagem,
idolatria, superstição, inimizades,
brigas, ciúmes, ódio, ambição,
discórdias, inveja, bebedeiras, orgias,
e outras coisas semelhantes. O ser humano precisa
esvaziar-se dessas obras da carne e preencher
esse espaço com a plenitude dos frutos
do Espírito, que são: caridade,
alegria, paz, paciência, compreensão,
afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança,
e, assim procedendo, fará a sua existência
humana tão pura e luminosa como a essência
divina. Deve buscar até encontrar um equilíbrio
entre o seu Eu espiritual e o seu ego humano.
Refletir, por a mente em oração/meditação
e ouvir a voz de Deus é do que precisamos
para acordar em nós o eco de nossa origem
divina. “Assim brilhe a vossa luz diante
dos homens para que vejam as vossas boas obras
e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt.
5,16)
* O autor é membro da Pastoral da
Liturgia da Paróquia N. Sra. Aparecida
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