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Os mentirosos
Pedro
Veriano
“Perto Demais” (Closer/
EUA, 2004) é a filmagem de uma peça
teatral de autoria do inglês Patrick Marber. É dele
o roteiro para o cinema. O tema é a hesitação.
Dois casais não sabem o que querem. E
mentem o tempo todo. Dan (Jude Law), um jornalista
especializado em obituários, encontra
Alice (Natalie Portman) quando ela é atropelada,
mas não recebe ferimentos graves. O encontro
gera um romance. Mas o instável Dan revela
simpatia por Anna (Julia Roberts), uma fotógrafa
que é sua velha conhecida. Numa brincadeira
na Internet movida por Dan surge Larry (Cliff
Owen), um dentista desprezado. Firma-se um quarteto
bem definido com Dan vivendo com Alice e Larry
com Anna. Mas Alice não é Alice:
chama-se Jane e ganha vida como stripper numa
boate londrina. Anna, que parece a mais sensata
das personagens, não deixa de manter encontros
com Dan, mesmo casada com Larry. Até como
vingança pela infidelidade da mulher,
Larry procura Alice. A geometria afetiva fica
muito confusa mas é este o objetivo da
peça-filme: as pessoas podem ser tão
fracas que se anulam, ou melhor, não se
encontram umas com as outras. Percebe-se a ausência
do verdadeiro amor e da ética. Chega a
um momento em que uma das personagens diz à outra
que “é a memória que nos
difere dos animais”. Até aí uma
mentira: o cachorro é prodigioso em termos
de memória, definindo o seu dono onde
quer que esteja. O diretor Mike Nichols habilitou-se
no cinema com a versão da peça
teatral de Edward Albee “Quem Tem Medo
de Virginia Woolf ?” Nela, também
dois casais discutem suas tendências amorosas
conseguindo com isso descobrir suas próprias
falhas. O filme deu um Oscar a Elizabeth Taylor.
Neste “Perto Demais” não se
vê um desfecho afirmativo. As figuras saem
da tela como entraram, sem saber como podem ser
sinceras umas com as outras. O filme é bem-feito,
conseguindo dinamizar as imagens de tal maneira
que não deixa a impressão de que
tudo pode se passar num cenário teatral,
repousando a ação nas falas. Como
experiente professor de interpretação,
Nichols retira o máximo de seu elenco
e a prova é que Natalie Portman e Cliff
Owen já receberam Globos de Ouro por seus
trabalhos semana passada. Todos devem estar na
entrega dos Oscar. Vitórias que não
eximem o resultado de uma visão deprimente
da vida de um grupo de pessoas. Mas não é a
incomunicabilidade que choca. O problema é que
os desabafos entre os participantes de uma espécie
de jogo é pousado numa linguagem chula,
numa exibição de franqueza que
revela, ao lado de uma cultura inconteste, um
desprezo pelos valores sociais, pelo respeito
mútuo. Fala-se o tempo todo em um tom
de farsa, procurando agredir com palavras. O
espectador sensível não vai gostar
- ou mesmo aturar. Apesar de ser um filme ambicioso
sob o ponto de vista artístico não
me parece aconselhado para os leitores deste
jornal. Muitos vão confundir com pornografia.
Não é, mas não dá margem
a que se pense em propostas edificantes. Os mentirosos,
como todos em toda parte, enganam a própria
vida. Curioso é que o filme de Taiwan “Vive
L’Amou” trata do mesmo tema, a incomunicabilidade
(e a solidão) quase sem usar palavras.
Espanta quando se vê a verborragia de “Perto
Demais” dar lugar a um jogo de imagens
sugestivo. Pena é que seja um filme demasiadamente
denso, inacessível a quem não consegue
suportar a lentidão de seqüências
como 10 minutos de uma pessoa chorando. Interessante é “17
Anos”, filme chinês de Zhang Yuan.
Irmãs de mãe vivem uma atormentada
rotina com o pai de parcos recursos financeiros
e a mãe dona de casa. A moça mais
nova, reconhecida pelo dono da casa por ser sua
filha biológica, é egoísta
e inventa um roubo culpando a irmã. O
conflito gera em morte e prisão. Dezessete
anos depois as lembranças persistem sacrificando
a criminosa. Narrativa neo-realista bem controlada
e um forte apego emotivo de fácil comunicação
com a platéia ocidental. Foi o prêmio
de direção no Festival de Veneza.
E os demais cartazes não prometem muita
coisa: “Elektra” é mais uma
aventura de heroína de quadrinhos. Na
história de “O Demolidor” ela
morre. Aqui ressuscita e mostra-se uma assassina
de aluguel. No correr da aventura a sua missão
vai sendo diluída ao ponto de transformá-la
em “boa gente”. Nos velhos gibis
havia uma linha bem definida separando mocinhos
e bandidos. A moda atual apagou esta linha e
já não se sabe mais quem é quem.
Desta forma, os novos heróis ganham o
cinema e procuram boas bilheterias com o cinismo
que preside muitas ações no cenário
atual. Um tudo que não leva a nada. “Desventuras
em Série” pode ser interessante
mas não para crianças como querem
vender. Dois órfãos acabam na casa
de um tio usurário que deseja matá-los
para herdar a fortuna da família. O ator
Jim Carrey aproveita a chance para fazer caretas.
A produção caprichou no “décor”,
construindo uma cidade nos palcos de filmagem
(set). Mas as cópias chegadas a Belém
foram dubladas para o português. Para se
ter uma idéia do inconveniente, há uma
garotinha que sussurra para os órfãos
da história e só eles entendem
o que ela diz. O recurso é a legenda.
Mas com a voz dublada não há legenda
e o público fica “sobrando”.
Espera-se uma semana com mais atrativos.
(veriano@supridados.com.br)
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