Irmã Maria Inês e irmã Maria Zélia: unidas pelo sangue
e pela Fé servem à mesma ordem em Belém

Vocação une ainda mais freiras gêmeas 

   Consagração total ao reino de Deus através da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor. Assim pode ser resumida a história de vida das gêmeas bivitelinas Maria Zélia e Maria Inês Franklin, que completaram 80 anos de vida no dia 24 de janeiro. A comemoração aconteceu domingo, com celebração eucarística na igreja anexa ao Instituto Boa Pastor, na BR 316. Participaram da missa quatro parentes das religiosas, que vieram a Belém especialmente para a comemoração: duas primas, uma cunhada e uma sobrinha. As quatro viúvas ficaram hospedadas no Instituto Bom Pastor. A catequista das religiosas, a leiga consagrada Carmesita Ramos, 86, moradora de Fortaleza, telefonou para parabenizar. Ambas irmãs tiveram formação no Colégio da Imaculada Conceição, das Irmãs da Caridade (Vicentinas) em Fortaleza. Aos 24 anos Maria Inês pediu para ingressar na Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, fundada por Santa Maria Eufrásia em Angers, França, em 1835. A religiosa Maria da Divina Graça, irmã de uma cunhada de Zélia e Inês, foi o contato da família Franklin com o monastério onde as consagradas desta família religiosa viviam, em Fortaleza. Irmã Inês conta que teve que esperar alguns anos para chegar à consagração. Da adolescência até a entrada no convento, trabalhou como datilógrafa no Ministério de Aviação e Públicas. O pai ficou contrariado, pois não queria ver a filha “trancafiada” até o fim da vida, além de perder uma fiel colaboradora no pagamento das despesas do mês. “É que neste tempo (a congregação do Bom Pastor) era de clausura, e ninguém saía para visitar a família”, lembra irmã Inês. “Mas eu queria mesmo viver a clausura, e deixei pai, mãe e emprego para fazer o noviciado em Salvador”, conta. Irmã Maria Inês chama-se, na verdade, Carmem Silvia. O nome mudou no dia da profissão religiosa, conforme o costume em vigor até o Concílio Vaticano II, que buscou dar mais valor ao nome de batismo. Por isso, irmã Zélia, que ingressou no ano de 1967, não precisou mudar de nome ao se tornar religiosa. As duas irmãs contam que, durante a infância, foram educadas ao molde de Santa Teresinha, que havia sido canonizada não fazia muito tempo. Um exemplo disso é que, mo aniversário, ao invés de receber presentes, elas participavam da missa e ofereciam ramalhetes espirituais a Nosso Senhor. Na adolescência, participaram da Cruzada Eucarística, da Pia União das Filhas de Maria e do Apostolado da Oração. “A formação da família é o que faz surgir vocações”, observa irmã Maria Inês, que foi superiora provincial e trabalhou em Salvador, Fortaleza, Recife e Belém, onde dirigiu o Instituto Bom Pastor por três vezes, colaborando com a construção do Centro Social na década de 80. A religiosa detecta falta de testemunho nas famílias contemporâneas. “Muitos pais não participam da missa aos domingos”, nota. “Nós, de manhã, éramos levadas à missa, e à tarde íamos à bênção (do Santíssimo Sacramento)”, relembra.

Muita paciência antes de realizar um sonho

Após a partida de Carmem Silvia, Maria Zélia esperou 18 anos para ingressar no convento. Além de trabalhar como funcionária pública (Caixa Econômica e Estado do Ceará), ela tornou-se, após o casamentos dos irmãos e da partida de Inês para o convento, aquela que iria acompanhar e servir os avós, tias e pais na velhice, até a morte. Esta missão foi aconselhada pela superiora da Congregação de Nossa Caridade do Bom Pastor, quando Zélia pediu para ingressar na vida religiosa. A recomendação foi cuidar dos parentes idosos, aceitando a condição de “arrimo” que a Providência Divina lhe tinha preparado, sem deixar de perder a esperança de se tornar “prisioneira de Cristo”. Após a morte da mãe (1965), Zélia ficou em casa com duas parentas que haviam chegado do interior do Ceará. A transferência de uma irmã casada que vivia em São Paulo para a residência da família em Fortaleza, que até então ela administrava, foi encarada com o providencial sinal que era hora da consagração (1967). “Eu sabia que tu irias ser freira”, confessou a irmã que havia chegado do Sudeste. Zélia foi criticada pelos colegas de trabalho, por abrir mão da segurança do emprego público e das festas do arromba do “tempo do iê-iê-iê”. No noviciado, sua mestra foi a irmã Maria Inês. Ela encontrou uma família religiosa em renovação: dentro do clima de reforma da Igreja (Concílio Vaticano II), a congregação abdicou da clausura completa para que as irmãs ampliassem o apostolado social, que já realizavam vivendo em meio a presidiárias. O hábito (uniforme) de Santa Eufrásia foi substituído por um mais simples. A Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor foi criada para dar assistência as mulheres decaídas. Por isso, as religiosas uniam a clausura ao serviço ao próximo trabalhando em casas de detenção femininas. Também valorizam, no carisma, os Sagrados Corações de Jesus. Hoje, o apostolado foi ampliado para a evangelização de áreas de periferia e da educação. Em Belém, a congregação administra o Instituto Bom Pastor, na BR 316, escola conveniada com o Estado.

“Foi Deus que nos chamou” para a vida consagrada

Irmã Maria Inês, como a senhora vê essa graça de Deus que é a consagração à vida religiosa de duas irmãs gêmeas?
Eu vejo tudo como uma vocação de Deus. Foi Deus quem chamou. Deus chama pelos sinais dos acontecimentos. Agora, eu senti o chamado cedo. Desde os oito anos já sentia o chamado de Deus. Então já tinha aquela formação, aquela coisa de querer ser de Nosso Senhor. Na primeira vez que eu fui no Bom Pastor, eu tinha oito anos. Minha mãe disse-me: minha filha, atrás daquelas grades existem as prisioneiras de Jesus. Eram as irmãs do Bom Pastor que tinham clausura. Eu, comigo mesmo, disse: eu também vou ser prisioneira de Jesus. Quer dizer, ficou aquela idéia na infância. Depois, vem a adolescência, o colégio, os estudos. Passei 15 anos sem ir lá no Bom Pastor. Depois desse tempo, a irmã disse, em uma única visita, toda missão que era de uma irmã do Bom Pastor. Quando pedi em casa para entrar, foram do contra, porque era funcionária, que estava ajudando em casa, que era pobre, que tinha que ajudar papai e mamãe, que eu esperasse mais um pouco, que a minha irmã gêmea iria sofrer muito. Eu esperei por cinco. Até chegar aos 24 anos, quando disse: agora eu não espero mais não, agora eu vou, de verdade.

E você, irmã Maria Zélia, o que diria para aquelas pessoas que têm vocação e, por algum impedimento, não podem ingressar na vida religiosa no momento em que se sentem chamadas? Elas devem ficar aguardando, devem confiar na graça de Deus?

A graça de Deus é muito importante para todos nós. Sendo arrimo de família, entreguei (a causa) a Deus: se é para ficar em casa, eu fico, mas depois eu resolvo a minha vida. Funcionária há 23 anos, trabalhando e ajudando a família, só fiz o ginásio, não quis me formar, mas me especializei em cursos de datilografia e profissionalizantes; depois, quando funcionária, ganhei meu dinheiro, ajudei em casa, passeei com a minha mãe, enquanto ela viveu, e fiz todos os gostos dela. Depois, Nosso Senhor me chamou muito, e ela foi para o Céu. Quando minha outra irmã chegou de São Paulo, eu disse: agora quem vai sou eu. Eu vim embora para o convento, em Recife.


 

 


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