A luz do cego

     Mons. Aderson Neder
     Sacerdote Diocesano
    

     

     Já ouvi contar essa história do cego, inclusive pela televisão. Bastante comprida, daria para ser desenvolvida em um livro. No entanto, só sei o final de uma versão. Muito simples, mas de muito significado. Tratava-se de um cego que estava em uma reunião religiosa, à noite, e, no final da mesma, pediu uma vela acesa para caminhar de volta para sua casa. Como alguém lhe perguntasse para que seria a vela, se ele era cego, prontamente respondeu que, para ele, a vela não serviria, pois ele tinha a sua luz interior que o guiaria para casa, mas a vela acesa lhe daria chance de iluminar o caminho para seus companheiros, bem sadios de visão, mas que não poderiam andar com segurança se não houvesse uma luz no caminho. Aquele cego não tinha a visão corporal comum, mas já estava beneficiado por Deus com a luz interior, que o fazia caminhar com segurança, sem medo de tropeçar em algo ou de cair em alguma depressão. Em minha vida ministerial, conheci dois casos de irmãos que eram sadios e depois ficaram cegos no corpo. Um deles morava - ou mora? - em Abaetetuba (o amigo Pe. Dante poderia contar melhor o seu caso), o outro morava no bairro da Terra Firme, onde eu fui pároco. Ambos, após ficarem cegos, tiveram uma atitude parecida, só entendida através da luz da fé que cresceu neles depois da cegueira corporal e lhes proporcionou uma vivência de felicidade, que antes não usufruíam, pelo melhor conhecimento de Jesus. Perguntado-lhes se, com a fé que demonstravam ter adquirido com a cegueira, não queriam pedir ao Senhor a cura, pela recuperação da visão, ambos, em termos parecidos, usaram da mesma corajosa argumentação: preferiam continuar cegos no corpo, porque se sentiam com isso mais perto de Deus, que se lhes tornara Amigo, e eles tinham medo de que, readquirindo a visão corporal, voltassem a cometer certos pecados que a visão sadia lhes poderia proporcionar. O conhecimento de Jesus Cristo é uma Luz em nossa vida. Poderíamos ter todas e quaisquer compreensões da sabedoria humana, dadas pelos nossos sentidos, inclusive o da visão. Contudo, sem a vivência com o Senhor Jesus, pelo seu conhecimento e pela sua amizade, que a cegueira corporal pode ajudar a desenvolver, nossa vida espiritual nunca atingiria o seu grau máximo de felicidade. E todos devemos saber (e não só cantar...) que “Cristo é a Felicidade”, simplesmente porque Ele é a nossa Paz. Para quem um dia na vida conheceu Jesus e por Ele fez a sua opção fiducial, não pode haver felicidade verdadeira, se Ele é colocado de lado e marginalizado. O pecado, assumido como um estado vivencial, só traz consigo tristeza. Aceitar uma vida pecaminosa é procurar voluntariamente a infelicidade. Isto porque a nossa consciência não é algo com que se possa brincar. Se alguém conheceu Jesus e nele encontrou a autêntica alegria da vida, em hipótese alguma pode colocar o Senhor de lado e fingir ignorá-Lo em seu modo de ser e de viver. A paz na consciência - o melhor travesseiro, no dizer de Santo Tomás de Aquino - é condição “sine qua non” de qualquer aspiração à vida feliz. Os dois cegos, dos quais falei acima, compreenderam isso muito bem. Pela cegueira corporal eles descobriram e passaram a ter contato com a Luz da Vida, que é o Senhor. Eles adquiriram uma visão diferente daquela que tinham antes. Agora, mesmo não vislumbrando o mundo e tudo aquilo que ele oferece para completar a nossa vida, passaram a ter outra Vida, que os faz crescer na Amizade divina, e esta se tornou para eles a Luz maior, que não tinham antes, agora valorizada ao ponto de preferir ficar privado de tudo, mas não se arriscar novamente a perder essa Luz. Para o cego da história, Jesus Cristo é essa Luz interior, assim como também é para os dois exemplos que citei. Mesmo sem a luz dos nossos olhos corporais, podemos ser luz para os nossos irmãos, especialmente aqueles que vivem na sombra da morte do pecado. Os dois irmãos, que ficaram cegos no corpo, compreenderam que a luz dos olhos não basta, quando falta a luz dos olhos da alma. Seu amor pelo Senhor encontrou de fato uma verdadeira guarida em seus corações e, por isso, preferiram a escuridão corpórea em vez da “claridade” do pecado. Com sua nova luz interior, com certeza, esse amor do Senhor deve ter seguido seu curso normal, ou seja, deve ter ultrapassado a esfera pessoal para atingir outros irmãos que precisavam ser iluminados. Ninguém conhece o Mestre divino sem amá-Lo de todo coração. Assim como, ninguém cresce no Amor do Senhor sem querer ser dele um transmissor ou sem querer levar aos outros esse Amor que agora se lhes tornou uma realidade. A cegueira dos dois se transformou em Luz radiosa!




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