Os grandes tumultos

 

      Psicóloga Lúcia Abreu    

         

     Há no comportamento das pessoas um aspecto que me parece muito significativo e que se poderia traduzir da seguinte maneira: a satisfação costuma ser silenciosa e a angústia, barulhenta. Essa observação, assim formulada, pode parecer meio cabalística. Mas não é difícil constatar que ela se revela uma prática constante nos mais diferentes níveis das relações humanas. Veja, por exemplo, a maior queixa dos pais: nossos filhos nunca falam no que fizemos de bom, só sabem é descer a lenha nas nossas falhas. E é verdade. Em toda conversa de filho e mesmo em revistas de psicologia o que mais se faz é falar mal de pai e de mãe. Ninguém menciona o que eles fizeram de bom. A razão é simples. Aquilo que em nós funciona bem está em silêncio. A parte boa do relacionamento entre pais e filhos, os bons frutos que essa relação deu pela vida afora são realidades basicamente silenciosas. Se um certo indivíduo é desembaraçado ao falar com as pessoas, não se pergunta de que amor, de que apoio lhe veio esse desembaraço. Cada vez, no entanto, que ele perde o jeito na frente de uma menina, começa logo a investigar o passado: “não, sabe, minha educação foi muito repressora....”. Aí os pais terminam levando bronca por uma parte daquilo que eles fizeram. Porque o que eles fizeram de bom vai mesmo ficar em silêncio. No entanto, uma coisa pode estar em silêncio e ser extremamente ativa. Uma amizade silenciosa pode ser inesgotavelmente rica em trocas. Mas é importante não confundir relações silenciosas com relações silenciadas. Acho que o clássico exemplo de relação silenciosa é o almoço dominical em família. Porque ali, oficialmente, está tudo certo, oficialmente todo mundo aceitou aquela estrutura, aquela maneira de conviver, de estar reunido. Mas acaba o almoço e cada um vai para seu canto demonstrando claramente uma certa angústia no rosto. Oficialmente, tudo ali estava no maior silêncio, na maior satisfação. Na verdade, tudo podia estar apenas silenciado. Havia muitos gritos naquele silêncio. Muita insatisfação, muito tumulto. Silenciados. Importante não confundir essas cumplicidades de relações silenciadas, elas não são, é claro, as relações silenciosas. Aliás, me parece que uma das grandes descobertas de Freud foi perceber o quanto acontece nas coisas onde aparentemente não está acontecendo nada. É bom lembrar isso porque, na prática, a gente é muito treinado para substituir a percepção pela convenção. É a mera convenção que leva você a dizer, por exemplo: esta criança não está reclamando, portanto está satisfeita. Para reconhecer que em nós existem áreas que não estão em silêncio é preciso, para começar, coragem. Normalmente, o que todo mundo faz é tentar manter as áreas silenciadas como se fossem silenciosas. Estou gritando, mas não quero ouvir a minha própria angústia. Na maior parte das vezes, por causa da descrença na possibilidade de uma vida satisfatória. Acho que ainda existe muita resignação entre as pessoas, isso é uma pena também, porque chega a impedir o crescimento pessoal. Na verdade, as pessoas nunca param de falar o tempo todo, de gritarem o tempo todo. Por desesperança, optam por não ouvir e pensam: “é melhor nem saber, porque não vou ser capaz de resolver”. É a desesperança. O mundo interior é mais como um labirinto: você ilumina uma pequena sala e talvez veja uma porta que dá para outra sala maior, ou para outros corredores. Assim o dar-se conta de si não é como uma luz inapelável que tudo esclarece. É a partir de pequenas questões que eu vou me dando conta de mim. Nas pequenas coisas é que dão bandeira os grandes tumultos. No trivial, no habitual, no pequeno - no modo de cumprimentar, naquele bom dia atravessado que engoli quieto, aquela palavra de raiva ou afeto que disse ou deixei de dizer, aquela oportunidade de me abrir que eu deixei passar. Tudo o que se vai acumulando fica mal acomodado dentro da gente - e grita. O que em mim faz barulho? O que eu não botei pra fora? Na medida em que me dou conte e assumo a vida que na verdade estou vivendo, posso me apropriar da minha história e não silenciá-la sistematicamente. Na verdade, a insatisfação sempre acha um jeito de fazer barulho. O que a gente faz de bom desaparece, vira silêncio, satisfação, criação e toda uma nova energia.

Email: luciafma@hotmail.com




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