Meta cristã: resistir às tentações

 

      Raul Monteiro         

    Chegamos ao primeiro domingo da Quaresma, quarenta dias de oração e penitência com que a Igreja nos prepara para a celebração da Páscoa. Quarenta era um número particularmente significativo no mundo bíblico. O dilúvio durou quarenta dias e quarenta noites. O povo hebreu viveu quarenta anos de vida nômade no deserto. Moisés passou quarenta dias junto de Deus no Monte Sinai e, sobretudo, Jesus passou quarenta dias de jejum no deserto, o que inspirou o estabelecer-se na Igreja estes quarenta dias de penitência da Quaresma. O deserto de que se fala no Evangelho deste domingo é uma região pedregosa, árida e inculta, onde, apenas na primavera, uma escassa vegetação dá sinais de vida. Trata-se do deserto de Judá, não longe de Jericó.Foi para esse deserto que o Espírito Santo levou Jesus, depois de ser batizado por João Batista, e lá o deixou ficar em oração e jejum durante quarenta dias e quarenta noites sem comer nem beber. No isolamento e recolhimento espiritual a que se submeteu, Jesus foi tentado por Satanás, que procurou desviá-Lo do caminho correto, tentando fasciná-Lo com promessas de bens terrenos. Todas as tentações que temos na vida são provas a que Deus nos submete para que vençamos nossas más tendências. Alguém que nunca fosse tentado, acabaria se considerando santíssimo, e cairia num orgulho incontrolável. Jesus Cristo foi tentado para que nós compreendêssemos a necessidade da tentação, sabermos como somos fracos e as forças que Ele nos dá para resistirmos. A tentação pode vir do demônio, de outras pessoas que nos convidam para praticar o mal, diretamente ou por seus maus exemplos, ou de nós mesmos. Daí a Igreja dizer que a tentação nos vem do demônio, do mundo (dos outros) e da carne (do nosso ser mesmo). Muitos cristãos ainda duvidam da existência e do poder de Satanás e estão sofrendo as conseqüências da incredulidade. Uma vida oprimida e triste, longe dos cuidados do Senhor. O demônio é um ser pessoal, real e concreto, de natureza espiritual e invisível, que, pelo seu pecado, se afastou de Deus para sempre, “Satanás e os outros demônios foram criados por Deus, naturalmente bons; mas eles, por si mesmos, se tornaram maus”. O demônio é o pai da mentira, do pecado, da discórdia, da desgraça, do ódio, do absurdo e do mal que há em toda a terra. É a serpente astuta e invejosa que traz a morte ao mundo, que semeia o mal no coração do homem. Seu único fim no mundo, ao qual não renunciou, é a nossa perdição. E tentará diariamente alcançar esse fim por todos os meios ao seu alcance. Ele é o único inimigo que devemos temer, se não estamos perto de Deus. O demônio fez três tentativas com Jesus, mas Ele respondeu com vibrante energia: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto (Mt 4, 10)”. Três ataques do demônio! Três vitórias de Cristo! Tudo pela força da Palavra de Deus! O demônio teve que se retirar. E os anjos do céu se aproximaram de Jesus para servi-Lo (Mt 4, 11). Hoje as tentações que envolvem os homens e as mulheres são muitas e a vitória do demônio é grande, porque as pessoas, na liberdade que Deus lhes deu, no livre arbítrio de suas decisões, são tentadas a se desviar de Deus e de seus caminhos, aceitando por vontade própria o caminho do pecado que o demônio lhes apresenta: colocam suas almas em perigo de salvação, transgridem os Mandamentos da Lei de Deus, cometem todos os tipos de pecado (os capitais, os veniais, a violência contra os semelhantes, a corrupção da honestidade e da lealdade, abusam da sexualidade criando aberrações às tentações da carne e muitos outros) aos quais não conseguem resistir, como, agora, ocorreu no carnaval, a luxúria em plenitude, deixando o demônio em pleno contentamento, mais alegre e feliz do que os próprios foliões. Com Jesus Cristo, o poder do demônio reduziu-se consideravelmente, pois Ele “nos libertou do poder de Satanás”, que só pode causar verdadeiros danos a quem livremente lho permitir, consentindo no mal e afastando-se de Deus. Em Jesus está posta toda a nossa confiança, pois Ele não permite que sejamos tentados acima das nossas forças, porque ninguém peca por necessidade. Jesus enfrentou e venceu as tentações. Ele pode ajudar-nos quando formos tentados. Reflitamos e procuremo-Lo. E na reflexão, nesta Quaresma ora iniciada, deveremos considerar com profundidade, a resistência às tentações.

* O autor é membro da Pastoral da Liturgia da Paróquia N. Sra. Aparecida




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