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O
pai de Peter Pan
Pedro Veriano Sobre o filme “Em Busca
da Terra do Nunca” (Finding Neverland/
EUA,2004) escreveu o crítico Roger Ebert
do “Chicago Sun Tines”: “Não é a
história da criança que não
queria ser adulta, mas do adulto que não
queria deixar de ser criança”. Este é o
modo de se ver o escritor britânico James
Matthiew Barry na peça de Allan Knee e
no filme de Marc Forster em cartaz nos cinemas
brasileiros. Barrie é mostrado como um
teatrólogo solitário apesar de
casado com uma senhora de família prestigiada
na corte eduardiana, Mary Ansell, e apoiado por
um diretor de teatro que apreciava o seu potencial
como autor de peças versáteis:
Charles Frohman. Um dia, passeando no parque
próximo de sua casa, em Londres, ele encontra
a viúva Sylvia Llewelyn Davies e seus
quatro filhos. Passando a brincar com os meninos,
descobre um lado de sua personalidade que lhe
dá prazer: a comunicação
com a infância. Penetrando neste mundo
de brincadeiras o teatrólogo não
só ganha alegria de viver como a inspiração
para escrever a que seria a sua maior obra: “Peter
Pan”. Quem não conhece a história
do garoto que não queria crescer e vivia
numa ilha chamada de Terra do Nunca convivendo
com piratas, fadas e crianças perdidas?
Peter Pan tornou-se universal partindo do teatro,
seguindo a literatura e o cinema. Nesta última
expressão artística foi alvo de
muitos filmes, a começar com o desenho
animado de 1954 feito pelos estúdios de
Walt Disney. Barrie foi realmente um grande amigo
da infância. Ao morrer, em 1937, doou os
direitos de sua obra máxima para um orfanato
londrino. No filme em cartaz mostra-se a estréia
da peça, ocasião em que ele reserva
25 lugares para os meninos e meninas do referido
orfanato. Mas o roteiro de David Magee para o
trabalho de Marc Foster (diretor do recente “Monster”,
filme em tudo diferente), desafia uma abordagem
sutil do relacionamento de Barrie com Sylvia.
Eles teriam mantido uma amizade pura, amparada
no bem-estar dos filhos dela. Não se sabe
se a viúva chegou a ser amante do escritor.
Se foram, aceitando o adultério e tentando “justificar” isso
na infidelidade patente de Lady Mary, o filme
prefere esquecer para não macular o espírito
infantil do criador de Peter Pan. Em um momento
ele chega a dizer: “Não deviam deixar
as crianças dormirem; quando acordam estão
um dia mais velhas” (e por isso mais distantes
da magia da Terra do Nunca). Na história
de Peter Pan há uma bonita metáfora
sobre essa questão da poesia infantil
que se esvai na idade adulta. Wendy, a mais velha
dos irmãos, passa a sua última
noite com eles, pois a mãe já havia
preparado um aposento para ela, uma adolescente.
Nessa oportunidade ela encontra Peter Pan e viaja
com os manos para a ilha encantada. Por lá vive
muita aventura e, quando volta, sabe que aquilo
foi um “adeus”. O modo como Wendy
se despede de Peter pode até lembrar o
modo como Barrie despede-se de Sylvia, que morre
presumivelmente de tuberculose. O filme é muito
bonito. O diretor fez questão de usar
uma linguagem linear, de fácil entendimento
por todas as idades, e colocou nos principais
papéis excelentes intérpretes.
Johnny Depp, como James Barrie, está diferente
de tudo o que fez antes em cinema. É outra
vez candidato ao Oscar (foi no ano passado por “Piratas
do Caribe”) e é uma pena que talvez
venha a perder (o favorito é James Foxx
no papel do músico Ray Charles). Kate
Winslet, candidata também ao Oscar, mas
pelo maravilhoso “Brilho Eterno de uma
Mente sem Lembranças”, talvez destoe
na maquilagem como Sylvia Davies. Na sua fase
de doente ela não deixa ver imagem de
sofrimento. Está sempre bonita e bem maquilada.
Os meninos é que não destoam. Vale
anotar os nomes desses atores em ascensão:
Freddie Hoghmore (Peter), Joe Prospero (Jack),
Nick Roud (George) e Luke Spill (Michael). O
filme não é nenhuma obra prima.
Até que deixa o que pensar aos perfeccionistas
quanto ao tempo da ação (muitas
idéias, como as crianças brincando
de faroeste, parecem modernas demais). Mas é de
uma singeleza pouco encontrada. Hoje em dia chega
a ser difícil achar um filme que aposta
na felicidade interior, na criança que
existe dentro de nós. Esta “síndrome
de Peter Pan” acompanhou a realização
como um todo. “Em Busca da Terra do Nunca” é candidato
a seis Oscar: filme, diretor, ator, roteiro adaptado,
montagem, direção de arte, figurino
e trilha sonora. Outro filme da semana é (ou
foi) “Jogos Mortais” (Swan/ EUA,
2004). Desta vez cabe o lugar comum do pior.
Um maníaco produz assassinatos sem que
ele próprio mate alguém. Na seqüência
síntese ele mostra dois homens amarrados
num cubículo sujo e propõe que
um mate o outro em determinado tempo. A sugestão é reforçada
por ameaças aos familiares de uma das
vítimas. Crueldade explícita inaugura
a carreira do diretor James Wan. Um técnico
que mostra o que aprendeu, mas o faz apostando
no medo por parte da platéia. Medo e asco.
Finalmente “Nathalie X” (Natalie.../
França, 2003). Aqui estrelas do cinema
francês, Fanny Ardant, Gerard Depardieu
e Emanuélle Béart, mostram classe
em uma história de adultério que
abala um casamento de 25 anos. O tratamento dado
pela diretora Anne Fontaine condiz com os atores.
A crueldade fica nas falas. E estas não
são em tempo algum vulgares. Há uma
reflexão interessante sobre as dúvidas
que podem pairar sobre um casal que não
cresce espiritualmente.
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