A alegria de ser católico

O amor de Deus se revela na solidariedade

    João Carlos Pereira

    Ainda que muita gente esteja tentando ver no fenômeno das ondas gigantes um sinal apocalíptico, prefiro escutar a idéia de um companheiro de missa, que percebeu no maremoto um aviso da natureza. O noticiário de televisão ensina, baseado na palavra dos cientistas, que as camadas que formam a crosta da Terra se atritaram e provocaram a revolta das águas. Pode ser. Aliás, deve ser. Mas num mundo de tantas incertezas, sempre resta uma pergunta no final da frase: será que se a vida no planeta não estivesse sendo tão agredida, o mar teria causado tanta morte? As informações chegam como “tsunamis” e vão invadindo a casa da gente. Todos os dias, tanto nos canais abertos, quanto naqueles que se voltam para programação científica, fala-se, insistentemente, na violência com que nós, os seres (des) humanos, tratamos nossa casa. Como é observação científica, ninguém, fala em Deus, mas é claro que o Criador deve se sentir incomodado, ao ver sua obra - a Terra - ser brutalmente agredida por aqueles que, criados à Sua imagem e semelhança, não conseguem refletir, nos atos, a grandeza que a centelha divina pode produzir. Longe de mim querer bancar o ecochato e ficar associando ecologia com castigo divino. Jamais faria isso, porque entendo que Deus não castiga. Deus ensina, orienta, age, recoloca no caminho, movido - e não podia ser diferente - pela essência amorosa que criou o universo. Quando as geleiras dos pólos começam a derreter e o volume da águas dos oceanos ameaça a vida, é preciso que o homem assuma sua culpa e não fique dizendo que Deus está castigando a vida. Agora, na Ásia, é possível identificar o amor de Deus no gesto generoso e solidário do mundo inteiro e nunca na condução da onda de trinta metros em direção ao continente, para arrasar com a vida de mais de cento e cinqüenta mil pessoas. Isso não é próprio de Deus. Um bom exame de consciência talvez ajudasse a perceber que o mundo está como está, porque o homem - e não o nosso Deus - está fazendo dele uma imensa lata de lixo. Há alguns dias, encontrei a passagem evangélica em que o inimigo se aproxima de Jesus para tentá-lo. O verbo tentar é totalmente impróprio para a situação. Pelo menos é o que diz a Bíblia ecumênica da TEB, que, numa imensa nota de rodapé, ensina que o nosso Mestre foi provado. Imagine se o demônio, na condição de pai da mentira e do medo, teria alguma chance de estender tapetes da tentação sob os pés do Salvador do mundo. O que ele fez, no máximo, foi tentar provar o Senhor. Tentou e se deu mal. Mas e nós, pobres e indefesas criaturas, sujeitas ao ataque faminto do mal, resistimos, sem dobrar a espinha, à provação? A primeira coisa que dizemos é que não merecemos o sofrimento. A partir daí, se desenrola uma fileira de sandices. Quando a ação é individual, fica complicado querer entender. Mas se o problema alcança a natureza, é bom pensar que não há provação e muito menos tentação. O mundo vem sendo, permanentemente, vítima de depredação e de desamor. Não amamos nossa casa, nosso chão, nosso espaço de vida. Pelo contrário: tratamos a casa, o chão, os espaço de vida como se não dependêssemos deles para viver. Cuidamos no planeta com um descaso que há muito já ultrapassou os limites da irresponsabilidade. Chegamos à beira da ação criminosa e sequer nos damos conta de estarmos secando o único poço de onde ainda é possível retirar água potável. As reservas, que pareciam infinitas, hoje já acendem a luz amarela, avisando que alguma coisa não está bem. No ano em que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil optou por trazer para a Campanha da Fraternidade o tema da água, muita gente achou que se tratava de exagerada preocupação. Não era. A partir de então, o Brasil despertou (mas voltou a dormir) para a questão de que não teremos água para sempre. Como isso ainda está um pouco distante de acontecer e, quando acontecer, provavelmente já nem estaremos mais aqui, a irresponsabilidade humana continuará falando mais alto e o mundo que se arrebente sem água. A lição das ondas gigantes não deve passar desapercebida. Pode não ser um sinal do fim dos tempos, mas precisa ser entendida como uma advertência de que alguma coisa está mal arrumada. Ninguém reage, se não for agredido. Nem os bichos. A Terra, em estado de imensa sensibilidade, vem avisando que entrou em sofrimento. A prova está aí, diante de nossos olhos. O problema é que a verdade incomoda e dói. E mais de cento e cinqüenta mil pessoas foram levadas pelas “tsunamis”.


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