Aniversário de Belém

 

     Ivens Coimbra Brandão

     Entendendo homenagear Belém neste aniversário da cidade, o articulista pede permissão para mais uma vez abrir o baú de suas lembranças que, mescladas com um pouco de pesquisa, invocam os tempos de uma Belém 60 anos mais jovem, uma pacata cidade com a sétima parte da população de hoje. Se vista do alto, mostrava as edificações formando um casario cujos telhados intercalavam com as copas das árvores dos logradouros, e as dos quintais das casas dos bairros residenciais. Naquela época, início da década dos anos quarenta, ainda não havia prédios altos em Belém. A grande maioria das casas residenciais era constituída de um só pavimento, algumas com o piso elevado, formando o chamado porão habitável. Eram edificadas com tijolos de argila, as mais antigas com “tijolo angular”, ou mesmo com pedras naturais argamassadas com cal, sendo os vãos de portas e janelas estruturados em arcos, ou com peças de madeira embutidas nas alvenarias. Destacavam-se os prédios construídos no estilo neoclássico, ora citando-se dentre outros o Palacete Bolonha, o Grande Hotel (que deixaram ser demolido), e o Palacete Augusto Montenegro, onde funcionou a Reitoria da Universidade Federal. A área da cidade se constituía de uma gleba, cujo traçado foi elaborado em 1905, na administração do intendente (prefeito) Antônio Lemos, sendo assim definidos os limites da 1ª Légua Patrimonial: com centro do compasso no Forte do Presépio, abertura de seis mil e seiscentos metros (uma légua), foi traçado um arco de círculo a partir da margem da Baía de Guajará, até à margem do Rio Guamá. O motorista hoje mais atento percebe que, ao transitar pela “Perimetral”, seguida da Av. Dr. Freitas, no sentido do Campus da UFPA para a Av. Arthur Bernardes, estará sempre descrevendo uma suave curva para a esquerda, ou seja, está percorrendo o citado arco de círculo, que tem um de seus pontos perfeitamente definido, na confluência das avenidas “Perimetral” e “Almirante Barroso”: o “Marco da Légua”. Voltando ao casario de antanho, era comum a construção de casas residenciais para serem alugadas, construídas por mestres de obra geralmente portugueses, contratados por investidores patrícios mais abastados. Estilo e disposição dos cômodos eram muito parecidos. A fachada ficava no alinhamento da rua, e entre uma casa e outra se usava parede comum, ficando assim as casas geminadas. Isto porque, tantas vezes, eram casas de um mesmo proprietário. A disposição das dependências, em geral, era assim: hall de acesso, sala de visitas seguida da alcova (dormitório do casal), sala de refeições, “puxada”, para onde se comunicavam os quartos, seguidos um ao outro, cozinha, e por último, banheiro e sanitário. Este era o padrão de residência da classe média, a maioria pagando aluguel. Do que ficou descrito, os dormitórios (alcova e quartos), não tinham ventilação nem iluminação direta. Mas não se ouviam queixumes sobre calor, não havendo ventiladores nos quartos. Ar condicionado nem pensar, pois tais aparelhos não eram sequer conhecidos. Mas se não havia reclamos de calor para dormir, transitar nas ruas parecia também não trazer calor, pois os homens trajavam habitualmente paletó e gravata, e as mulheres se vestiam com pelo menos duas peças de roupa sobrepostas, havendo aquelas que usavam mangas compridas. Eram tempos em que não havia supermercados. As famílias, em geral, eram providas pelas mercearias da esquina, fazendo as compras maiores nos primeiros dias do mês. As necessidades do dia-a-dia iam sendo atendidas pelo merceeiro, tudo ficando anotado em um caderno, para ser pago ao final do mês. Aquelas de maior poder aquisitivo se serviam das poucas e tradicionais casas fornecedoras de gêneros alimentícios: “O Vesúvio”, localizado na então Av. 15 de Agosto, hoje Presidente Vargas, esquina com a Rua Senador Manoel Barata; “Casa Sport”, também na Manoel Barata, esquina com a Travessa Frutuoso Guimarães; e a “Casa Corcovado”, na Avenida Portugal, esquina com a Rua João Alfredo. Feitas as compras do mês, às vezes por telefone, tudo era entregue em casa. Na grande maioria das residências não havia refrigerador, daí porque os alimentos perecíveis eram adquiridos para serem consumidos no mesmo dia. A carne bovina e o peixe eram vendidos nos mercados do Ver-o-Peso e em São Brás. A carne, também era comercializada em “talhos”, nos demais bairros da cidade. Peixe e camarão eram oferecidos por ambulantes, em tabuleiros de madeira equilibrados em rodilhas de pano na cabeça do vendedor. Consta na lembrança, o brado característico do ambulante a cortar a quietude do início de uma manhã daquela Belém de outrora: “Peixe... camarão...” O leite, in natura, chegava às casas logo de manhãzinha, transportado em carroças puxadas por animais. Muito ainda se teria a partilhar com o leitor sobre a Belém mais jovem. Mas se Deus quiser, não faltarão oportunidades. Neste seu 389º aniversário, que a luz de uma grande vela, colocada bem no alto, ilumine o passado que nos trouxe ao presente, e venha clarear os caminhos que indiquem um futuro de prosperidade e paz.

Fone: 223-8484;
ivenscb@amazon.com.br


Clique aqui para imprimir esta notícia...

 



Página inicial.