Expressões de fé

      Mons. Aderson Neder
      Sacerdote Diocesano

      É claro que a fé não se expressa tão somente pela manifestação festiva. Esta, contudo, pode ser também a amostra de um povo ou mesmo apenas de uma pessoa que tem fé e a vive de fato. Nesse sentido, tenho tido a oportunidade de ver expressões festivas da fé, que geram um entusiasmo muito alegre, mas ao mesmo tempo muito equilibrado e sereno, que igualmente a mim deixou muito feliz. As vi em duas paróquias que visitei ultimamente, a convite de seus dirigentes religiosos, para uma série de pregações cujos assuntos me agradaram também, por me serem quase todos familiares. Gostei porque tive a confirmação de que, se prego sobre eles com assiduidade, é porque os julgo essencialmente necessários e que, em hipótese alguma, podem ser esquecidos ou deixados de lado, com a justificativa de que, em nossos tempos, outros são mais necessários para o nosso povo que, como tantas vezes tenho afirmado, possui uma conscientização muito escassa. Ambas as séries de assuntos devem ser tratados, porque uns são bases dos outros. Refiro-me aos temas basilares, como a fé, a graça, a eucaristia e todos os demais sobre os quais se assenta a nossa fé religiosa. Os outros são todos aqueles que questionam nossas estruturas injustas, nos ensinam a reivindicar mudanças estruturais, a acenar por atitudes mais conscientes e, conseqüentemente, mais corajosas também como expressão de nossa fé. Nessas festividades, em que o povo comparece - em alguns lugares de modo muito promissor -, é importante que saibamos colocar nossos sermões de um modo que neles não faltem as expressões basilares da fé e igualmente as complementares. Procuro sempre fazer assim e não vi reação negativa por parte dos ouvintes. Um outro aspecto que sempre observo é em relação à piedade devocional de povo, seja do interior, seja da capital. São certas expressões de fé que primam pela simplicidade e, algumas vezes, beiram um pouco a superstição. Já não estamos naquele tempo em que os sacerdotes, em geral missionários que visitavam aquela comunidade de ano e ano, faziam sermões um tanto agressivos contra esses usos tanto inconvenientes da própria fé. Os resultados, conforme cheguei a constatar, não levaram ninguém a mudar de expressão. Combater, sem mostrar o motivo porque se combate, ou ainda pretender tirar algo sem apresentar um substitutivo, não dá resultado positivo. O povo continua do mesmo jeito e persiste em seu proceder, não porque seja teimoso, mas porque não compreende porque se exige uma mudança sem dar uma explicação justificadora da mesma. Na pregação, que deve primar pelo acolhimento dos irmãos ouvintes e pela clareza do que se prega, dever-se-ia encontrar um meio de incluir também uma justificativa fundamentada do que se está pedindo em termos de mudança. Quando pároco em Santo Antônio do Tauá, como padre ainda relativamente novo, fui visitar pastoralmente uma comunidade dedicada a São Benedito. No primeiro dia, à noite, prestei atenção ao que o povo cantava e como invocava seu padroeiro: “Nosso Pai misericordioso”. Antes de encerrar nossas atividades do primeiro dia, falei e pedi aos comunitários que procurassem substituir por outra a palavra “pai”, para não confundir o santo com o próprio Pai Eterno. Dei-lhes algumas sugestões. Parecia que todos tinham concordado. No dia seguinte, no final da Missa da festa, prestei novamente atenção para verificar qual das minhas sugestões eles tinham passado a usar a fim de substituir a citada expressão. Minha surpresa chegou quando ouvi que eles conservavam o mesmo nome da véspera, porque com certeza tinham tido medo de modificar um canto antigo na comunidade... Em outra capela, encontrei no altar três imagens de São Sebastião, uma delas já em estado precário de conservação e sem a devida cabeça. Falei ao responsável religioso do lugar, sugerindo-lhe que tirasse tal imagem e deixasse somente as duas outras. Sua resposta veio de imediato: “Padre, eu não vou fazer isso. Esta é muito querida pelo povo. Ela está assim, toda quebrada, mas ainda faz muitos e grandes milagres...” Perguntei-me: que dizer em tal argumentação? Valeria todo um estudo de teologia, mesmo graduado, para rebatê-la?


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