| |
Cinema
Os primeiros cartazes do ano
Pedro
Veriano
O ano ainda está carente de bons filmes. “Meu
Tio Matou um Cara” vê em tom de comédia
a ação detetivesca de um jovem estudante,
chamado Duca, que resolve provar a inocência de
um tio, preso pelo assassinato do marido de sua amante.
O pequeno investigador conta com a ajuda de dois colegas
de escola: Kid e Isa. O problema é que ele é apaixonado
por Isa e a menina apaixonada por Kid, O diretor e roteirista
Jorge Furtado quis voltar ao cenário de um seu
trabalho anterior, chamado “Houve Uma Vez Dois
Verões”. Focalizou preferencialmente a juventude
de sua terra, Porto Alegre (RS). Mas a meu ver não
foi tão feliz, No primeiro filme a trama girava
em torno da fidelidade (e caráter) da mocinha,
uma jovem que o herói da história encontra
na praia em uma temporada de veraneio. Ela mente muito,
desafia a confiança do parceiro. Mas o clima é bem
captado, a inexperiência juvenil é jogada
para um plano poético. Aqui, em “Meu Tio
Matou um Cara”, choca-se o mundo dos adolescentes
com o dos adultos, Mas sem um tratamento denso que o
assunto requer. Por isso o que seria um drama vira uma
comédia. A parceria com Guel Arraes (O Auto da
Compadecida, Lisbela e o Prisioneiro) não é à toa.
Salvam-se os atores, todos muito bem, inclusive estreantes
como Sophia Reis. Um filme fácil de ver como fácil
de esquecer. “A Lenda do Tesouro Perdido” (National
Treasure) até que é engraçado. Um
caçador de tesouros descendente de profissionais
da mesma linha, resolve descobrir o “maior de todos
os tesouros americanos”, coisa que o avô jurava
existir e lhe contava desde que começou quando
usava calças curtas. Depois de procurar pistas
nas geleiras da Antártida ele descobre que o esconderijo é na
própria América do Norte e o mapa está codificado
no documento original da Declaração de
Independência. O roteiro foi escrito por 5 pessoas
e não se sabe a quem coube a ironia de exacerbar
o tom patriótico de alguns filmes americanos,
a começar pelo valor maior atribuído à relíquia
histórica, passando por pistas falsas até acomodar
os figurantes nos subterrâneos de Boston, e também
de Washington, constatando que os EUA são ricos
por cima e por baixo (podem rir que é para isso).
Em um momento o mocinho deixa a mocinha dependurada numa
corda à beira de um abismo para segurar a Declaração
de Independência. Por sinal que ele se chama Benjamin
Franklin, com um Gates de sobrenome (que em inglês
quer dizer “portão”). Depois de passar
o perigo ele desculpa-se com a garota dizendo que precisava
salvar o documento. Ela aceita a explicação
e diz que faria o mesmo. Muito movimento, muito absurdo,
tudo por cima de uma base histórica em que entram
sociedades como os Templários e os Maçons,
valendo uma aula meio gaiata em torno dos homens que
fizeram a independência do País, como George
Washington, Thomas Jefferson e, naturalmente, Benjamim
Franklin (sem parentesco com o atual caçador de
tesouros); Ah sim: depois de achada a mina o governo
americano entra na história e faz doações
aos necessitados. Agora, no maremoto da Ásia,
foi preciso muita gente reclamar para George Bush liberar
dinheiro aos flagelados da região. “Façam
o que eu digo mas não o que eu faço” – é a
moral da coisa. Finalmente vi “O Grito”.
O diretor japonês Takashi Shimizu brinca de casa
mal assombrada com fantasmas careteiros e muito cabelo
no caminho. Sim, o filme fica registrado como o primeiro “terror
capilar” já visto. Antes de surgir o fantasma
assassino uma cabeleira imensa invade o espaço
focalizado. Quem sofre de caspa ou tem horror a barbeiro
vai gritar mesmo. Quem gosta de bom cinema também.
Os japoneses foram mais felizes no gênero “horror” com “O
Chamado” (The Ring) e “Dark water” (que
o brasileiro Walter Salkes acabou de refilmar para os
norte-americanos).Que as próximas estréias
sejam mais promissoras.
(veriano@supridados.com.br)
|