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Látex proporciona a Bela Época
Com o final do Império e o início da República,
deslanchou-se um processo de modernização das principais cidades
brasileiras, especialmente a da sede da Corte Real, que mais tarde tornou-se
a capital da República Brasileira, o Rio de Janeiro. Após 1889,
com as perspectivas do progresso e ascensão econômica proveniente
do ciclo da borracha, as cidades amazônicas passaram a integrar-se ao contexto
moderno do Brasil republicano. As principais capitais da Amazônia, Belém
e Manaus, começaram então a sofrer significativas transformações
urbanísticas, como forma de estabelecer uma nova imagem de mundo civilizado,
diferente da deixada pelo período colonial. O modelo de modernização
urbana foi das cidades européias, principalmente o de Paris, capital da
França. Aquele período ficou conhecido como Belle Époque,
tendo como símbolo maior, na capital paraense, o Teatro da Paz. “A
modernidade foi rascunhada em francês, que se tornou a língua corrente
das elites gomíferas e modelada através da construção
de ícones desta nova ordem, como os bondes puxados a eletricidade, os
quiosques, as belas praças, as largas avenidas, sem falar nos novos costumes
e hábitos impingidos à população desprovida de bens
carreados pela exportação do látex. Todos deveriam comportar-se
como parisienses ou britânicos e vestir-se de acordo com o último
figurino das casas francesas”, comenta a historiadora Maria de Nazaré Sarges,
no site Portal da Amazônia. Outras modernidades compuseram a “Bela Época” como
as ruas calçadas com paralelepípedos de granito importado de Portugal,
a construção dos grandes edifícios públicos, os serviços
telegráficos por meio de cabos submarinos, a drenagem dos alagados do
Reduto, o sistema de iluminação a gás e o Palacete Bolonha,
de estilo neoclássico veneziano. A historiadora diz que Belém foi
a primeira cidade amazônica a sofrer o impacto deste novo conceito de urbanização,
que, a partir de 1897, foi impulsionado pelo intendente do Estado do Pará Antônio
Lemos. “Uma nova organização urbana emergiu, transformando
o centro da cidade em um espaço bonito e asseado”, conta. “Ali
se encontravam as grandes casas aviadoras, os bancos e as lojas chiques com produtos
vindos da Europa, como a loja Paris N’América, cujo prédio
também é um símbolo daquela época”, complementa.
Essa nova condição econômica da região, explica Maria
de Nazaré, também propiciou a vinda das mais importantes companhias
teatrais e musicais da Europa, especialmente da Itália, França
e Espanha. Em 1878 foi inaugurado o Teatro da Paz, que se tornou o grande centro
cultural das elites paraenses. O prédio era sinônimo de entretenimento,
intelectualidade e uma forma de identificação com o comportamento
cultural da elite européia. Manaus, que crescia juntamente com Belém,
também recebia as companhias estrangeiras, as quais apresentavam-se no
Teatro Amazonas, para apreciação da elite amazonense, que também
queria exibir sua fineza. “A ostentação da riqueza desse
período estava não somente nos trajes e jóias importadas
pelos ricos, mas também nas iguarias consumidas por essa gente abastada
que necessitava de produtos requintados como o champanhe francês, a cerveja,
o vinagre português, a manteiga inglesa e uma lista imensa de produtos,
muitos dos quais considerados supérfluos em cidades como Belém
e Manaus, onde a maior parte da população tinha dificuldades de
consumir produtos básicos de sobrevivência, como o peixe, por exemplo”,
afirma Maria de Nazaré. Entretanto, os resquícios deste esplendor
que ainda se espalham pelas duas principais cidades amazônicas, diz a historiadora,
registram símbolos que expõem as contradições e fissuras
dessas capitais, que viveram sua Belle Époque num confronto muitas vezes
violento entre as elites, os governantes e os cidadãos anônimos
que ocupavam suas ruas.
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