DATA DE PUBLICAÇÃO: 04/08/2017
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Sal e Luz: A Charlie Gard


 
 
Dedico este artigo ao pequeno Charlie Gard, o bebê inglês que emocionou o mundo com sua breve passagem de 11 meses por aqui. Luz que chegou, no entanto, aos mais distantes pontos do planeta, onde ecoou sua luta pela vida em uma difícil batalha que terminou no último 28 de julho, uma sexta-feira “fria” no verão europeu. Charles sofria de uma doença genética muito rara, que debilita a força muscular e provoca, entre outras consequências, danos cerebrais, o que fez com que desde os primeiros meses de vida fosse internado e mantido vivo por aparelhos à medida que sua debilidade avançava. Sem esperança de cura no hospital que era atendido no Reino Unido, Charles seguiria, por vontade, investimento e esforço de seus pais, para um tratamento experimental nos EUA, mas, a pedido do próprio hospital, o que foi acatado pela justiça local, teve desligadas as máquinas que o mantinham vivo, não sem antes ter o caso se transformado em uma batalha judicial, movida pelos pais, para garantir o direito de buscar a cura ou sobrevida fora da Europa.
 
Ao longo de mais de cem dias, Charles teve sua história analisada nas cortes britânicas até chegar à Corte Europeia de Direitos Humanos e compartilhada pelo mundo, via web, por meio das mídias sociais e dos mass media, emocionando milhões de pessoas, inclusive o Papa Francisco e o presidente dos EUA. Por Charles, pessoas de todo o globo acompanharam, torceram e rezaram para manter viva a esperança de sua recuperação que, infelizmente, não teve tempo suficiente para tentar ser viabilizada fora do Reino Unido. A demora da batalha judicial e a burocracia também foram obstáculos para a agilidade que era fundamental no caso e a corrida contra o tempo foi perdida, aniquilando as últimas chances de tratamento alternativo, como foi o caso do hospital “Bambino Gesù”, administrado pelo Vaticano, que ofereceu ajuda.
 
Penso que a história de Charlie nos remete a muitas discussões, desde o questionamento ético fundamental sobre o valor da vida humana, sobre o progresso médico-científico e sua missão de lutar pela vida até o último recurso, sobre a moralidade ou direito que levou a justiça britânica a impedir a retirada da criança para buscar tratamento em outro país, sobre o dilema da eutanásia que o caso Charles Gard levanta ou a chamada “eutanásia de Estado” ou ainda a ortotanásia, que discursa sobre o morrer “com dignidade”, sem necessariamente definir o que isto significa e que, certamente, é um ponto de questionamento em que se consideram elementos que parecem simples de serem analisados mas que nos levam a observar com cuidado os valores da sociedade em que vivemos ou seus contravalores, que em resumo avalia, na verdade, o paradigma da utilidade, quando a vida só vale enquanto é útil ou não. É uma discussão, enfim, sobre o valor da vida de cada um de nós e a dignidade da pessoa humana cuja referência é o próprio Senhor. Afinal, a quem pertence a vida humana senão Àquele que a criou? A quem cabe o direito de decidir sobre sua viabilidade?
 
Em nosso país, onde sequer este tipo de diagnóstico seria possível para a maioria da população, onde as pesquisas são ainda diminutas para casos desta complexidade e onde os recursos públicos são desviados em boa parte para os bolsos da corrupção e dos corruptos, muitos Charlie’s morrem todos os dias também pela “eutanásia” da omissão dos maus administradores que desviam os recursos públicos, agindo como donos da vida, amputando ano após ano a esperança de ter ou recuperar a saúde de milhões de pessoas, as quais, muitas vezes, não dispõem do mínimo para sobreviver com dignidade, condenadas assim à morte.
 
Rezemos pela alma de Charlie, rezemos por nós também, por nosso país, pela conversão dos que atuam pelo mal, dos que se acham deuses, dos que compõem a politicagem funesta que indigna. Rezemos para que não esqueçamos o valor da pessoa humana, da vida que precisa ser protegida, defendida sempre. Rezemos para que não morram em nós a fé e a esperança. Que assim seja!
 



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