DATA DE PUBLICAÇÃO: 25/04/2019
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Conversa com meu povo: Uma porta aberta

Foto: Divulgação.
 

“Procuro abrigo nos corações, de porta em porta desejo entrar, se alguém me acolhe com gratidão, faremos juntos a refeição! Vou batendo até alguém abrir, não descanso, o amor me faz seguir, é feliz quem ouve a minha voz, e abre a porta, eu entro bem veloz, eu cumpro a ordem do meu coração” (Texto de Dom Carlos Alberto Navarro para melodia de Waldeci Farias). Diante da Ressurreição de Cristo, abre-se o mistério das portas que se abrem ou se fecham, à luz da Palavra: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição, eu com ele e ele comigo” (Ap 3,20). “Vi uma porta aberta no céu” (Ap 4,1).


Acolhamos o convite a entrar no lugar onde se encontravam os discípulos. As portas estão fechadas e com trancas, por medo dos judeus. São assim as nossas pobres portas, enquanto o coração de Deus abre todas as portas. E Jesus é a verdadeira porta (Jo 10,7-8), aquele que nos faz entrar na vida verdadeira, aquele que escancara todas as entradas para acolher-nos. Está aberto o caminho para nosso encontro com o Ressuscitado! (Cf. Lectio divina sui Vangeli festivi, anno C, Elledici, a cura di Anthony Cilia, O. Carm, Leumann – TO, 2012)


Entremos no Cenáculo e desfrutemos nossas descobertas (Jo 20,19-31). A primeira delas é que ele, o Senhor, está no meio de nós. Após a Ressurreição, não existem mais portas fechadas, pois todos podem se achegar a ele e acolher a sua presença. Aliás, a iniciativa é sua, pelo que nossos medos e receios caem por terra. Ele nem mede nossa disponibilidade, mas vem, malgrado nossas dúvidas e nosso passado cheio de fraquezas.


Outra surpresa é que ele mostrou aos discípulos e a nós suas mãos e seu lado ferido. Jesus não mente nem engana. Ele vem com suas chagas abertas, aquelas que abrem portas, pois não há ressurreição sem cruz, nem amor verdadeiro sem dor. Um grande abraço se alarga, para envolver tudo o que somos, nosso mistério de fraqueza e força, debilidades e esforços, para tudo redimir. Aquele que traz as marcas da paixão é o portador da verdadeira paz, aquela que o mundo não pode dar (Cf. Jo 14, 27-27). Nele, tomamos posse de todas as dores do mundo, toda a violência, tudo o que nos assusta e apavora. Podemos até enxergar este mundo de dentro das chagas gloriosas do Crucificado, especialmente aquela de seu lado aberto, lugar privilegiado para olhar o mundo com amor, e a fim de que não existam mais problemas sem solução, dificuldades intransponíveis!


Novidade é a alegria que experimentam os discípulos, para se cumprir a palavra de Jesus: “Também vós agora sentis tristeza. Mas eu vos verei novamente, e o vosso coração se alegrará, e ninguém poderá tirar a vossa alegria” (Jo 16,22). E nós com eles alcançamos a perfeita alegria, se nos deixamos tocar pelas suas chagas e pela sua paz, depois de entrar pelas portas abertas pelo Ressuscitado.


Dali nasce o envio e a missão. Os discípulos de ontem e de hoje estão unidos à mesma linfa vital, que desce do Pai eterno, para chegar a cada um que passou pela porta que é Jesus e pela sua Cruz. Enviados ao mundo, para transmitir a mesma vida, envolvidos da mesma forma pelo Amor infinito que brotou, quando, no alto do Calvário, “um soldado golpeou-lhe o lado com uma lança, imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19,34). As portas estão abertas também para o anúncio do Evangelho a todas as nações.


Para que nada faltasse, como somos pó, parecidos com as areias da praia do mar (Gn 22,17), na nova criação que se realiza em sua Morte e Ressurreição, Jesus sopra sobre seus discípulos, como Adão que de Deus recebeu o hálito de vida. E vem o Espírito Santo, amor infinito, para propiciar aos discípulos do Cenáculo, agora de portas abertas, e a todos nós, a graça de acolher, guardar e fazer frutificar os seus dons.
Entretanto, também nos traz o Evangelho a dura realidade de nossas dúvidas e inseguranças. Com Tomé, ausente na hora decisiva, recolhemos nossas ausências da casa da Igreja, nossa pequenez e inadequação. A aventura de Tomé é também nossa, nós que, estando fora de casa, da porta para fora, quando nosso lugar era estar com a Igreja e com a Comunidade, não acreditamos no testemunho dos outros, que insistem: “Vimos o Senhor” (Jo 20,25). Ao buscar, insistindo por duas vezes, os sinais dos cravos que feriram o seu Senhor, precisava ele de sete dias, para chegar ao “oitavo dia” e se tornar uma nova criatura. É o dia da circuncisão, quando a nova criatura é consagrada a Deus e recebe seu nome, sua identidade. Também é o dia do corte, do sangue que marca a carne e o coração, para entrar no Povo de Deus pela porta da fé. O Tomé machucado pelas dificuldades pessoais, nas quais também nos encontramos, há de ser agora fiel, convencido, persuadido e não mais incrédulo. E ele reconhece: “Meu Senhor e meu Deus!” É o Senhor que volta, novamente com as portas fechadas destinadas a se abrirem, para buscar a última ovelha que faltava!

Há lugar para todos nós no Cenáculo. Ninguém desperdice as muitas ocasiões para estar ali, na casa da Misericórdia divina, a fim de sair pelas estradas como apóstolo ou apóstola das portas abertas. Ao contrário, aproveitemos as graças do tempo pascal para nos lançarmos de novo e com maior vigor à missão, a fim de que nossa Igreja alcance os que estão mais distantes, os indiferentes, os mais pobres e sofredores, aqueles aos quais faltam a paz, o perdão e o acolhimento da Igreja, os que encontram portas fechadas. Com a graça de Deus, sejamos como que porteiros que fazem aceder àquele que é a porta das ovelhas e a porta da vida eterna todos os homens e mulheres de nosso tempo, e possam ouvir aquele que diz: “Eu sou a porta das ovelhas. Quem entrar por mim será salvo; poderá entrar e sair, e encontrará pastagem. Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,7-10).

 



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