DATA DE PUBLICAÇÃO: 06/08/2020
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Mundo juvenil e a fé cristã: O Pai como Bom Pastor dos seus filhos

Foto: Divulgação
 
Introdução
 
A passagem comemorativa do dia dos pais é uma oportuna ocasião para refletirmos sobre a identidade e a missão deles. Infelizmente são muitos os lares que não contam com a figura do pai, de modo que os filhos crescem na ausência dessa importante referência afetiva, moral e educativa. Isso gera graves prejuízos. 
 
Todavia, essa ausência não é simplesmente física. Em muitas famílias, há sim a figura do pai, mas nem sempre vivem e se alegram com a vocação à paternidade. Os filhos que vivem essa experiência são os chamados “órfãos de pais vivos”.
 
1 A referência do ”pai herói”  
 
Quem trabalha em escolas e está cotidianamente lidando com crianças e adolescentes, conhece o impacto da ausência da figura do pai na vida deles. Nessa fase somos ávidos por referências que nos dão segurança e com as quais podemos nos identificar, nos espelhar, nos confrontar e projetar o futuro.  
 
A ausência do “pai herói”, típico da infância, causa um vazio que pode marcar uma existência se não for justamente compensada. A orfandade é um sentimento pesado e que, para muitos, é fator para explicar e até justificar males quando jovem. Foi isso que escutei certa vez numa cela de um presídio conversando com um grupo de presos. Grande parte deles explicavam os desvios de conduta apelando para a ausência da referência paterna, afetiva e moral na infância. Tratava-se da figura da autoridade paterna inexistente.  
 
Sem dúvida, a experiência do sentir-nos amados nos capacita para amar. Muitas vezes, podemos ser cruéis quando somente condenamos jovens criminosos sem nos perguntarmos como passaram a infância: se tiveram um pai, se foram amados, cuidados, acompanhados, educados... O desenvolvimento da consciência moral não é automático, exige um longo e delicado processo de acompanhamento educativo.
 
2 Paternidade é direito e dever 
 
Na perspectiva da contribuição para o pleno desenvolvimento do filho e sua dignidade, o cumprimento da paternidade é um dever natural que, por sua vez, é direito do filho. Não significa uma imposição legal, mas é um dever ético que se impõe à consciência do indivíduo. 
 
Por outro lado, a paternidade declarada e legalmente reconhecida é um direito a ser gerido pelo pai com igual compartilhamento materno. Portanto, a questão da paternidade e da maternidade, traz consigo inevitavelmente direitos e deveres. 
 
O ato de gerar implica o dever de cuidar, proteger, promover, educar, etc. É verdade que muitos pais assumem a paternidade legal, mas nem sempre são honestos com sua dimensão afetiva (dar carinho), moral (dar bom exemplo, ser modelo), educativa (preparar para a vida) e econômica (providenciar o necessário para a justa manutenção da prole).  
 
Enfim, os filhos aos quais foi negado o direito de usufruírem do carinho paterno padecem uma situação de grave injustiça. A paternidade é uma relação natural e primária que jamais poderá ser suprimida e nem deveria ser renunciada. A supressão não é possível por causa da questão sanguínea (biológica, permanente) e também nunca deveria ser abdicada por uma questão de natural vínculo afetivo e consciência moral.
 
3 A paternidade na Sagrada Escritura 
 
Porque somos limitados, também a paternidade humana está carregada de fragilidades. Esse fato, podemos observar bem presente na Sagrada Escritura. Na Bíblia há pais de todo tipo: negligentes, violentos, corruptos, indiferentes, injustos, desonestos, etc. mas também vamos encontrar exemplos de pais virtuosos como, por exemplo Tobit, o pai do jovem Tobias. Vale apena ler o livro de Tobias. Deus se revela como Pai. 
 
Nos livros sapienciais a paternidade é sempre digna de respeito, reverência e honra. Algumas características são realçadas. O pai é compassivo com seus filhos (cf. Sl 103,13); o pai tem a missão de educar através da disciplina (cf. Pr 1,8) por isso o filho sensato acolhe a correção do pai (cf. Pr  3,12;   Pr 13,1).
 
A autoridade paterna se impõe com seus preceitos aos filhos (cf. Pr 6,20); esse versículo nos diz que a autoridade paterna se manifesta no ato de apresentar linhas de conduta para os filhos, caso contrário, o pai estará renunciando seu dever e sua autoridade. A perda da autoridade paterna ou materna acontece quando o pai ou a mãe se omitem de educar mostrando a seus filhos aquilo que é certo e o que é errado.  
 
No capítulo terceiro do livro do Eclesiástico, versículo 1-17, encontramos um maravilhoso texto que se configura como um comentário com indicações práticas sobre o quarto mandamento: “Honrar pai e mãe”. No texto é evidente o realce dado à figura do pai, sem deixar por menos o devido cuidado para com a pessoa da mãe. 
 
Ressaltemos alguns dados desse texto: Deus quer ser honrado na pessoa dos pais porque Ele é a fonte da paternidade (cf. Eclo 3,2); o filho que honra o próprio pai alcança o perdão dos seus pecados, será respeitado e terá vida longa (cf. Eclo 3,3.5.6); o pai é chamado a abençoar seus filhos e essa bênção consolida a vida deles (cf. Eclo 3,9). Os últimos versículos do referido texto convoca os filhos a cuidar dos pais na velhice, a não abandoná-los e a eles serem caridosos (cf. Eclo 3,13.14). Quem despreza o próprio pai comete uma blasfêmia, pecando contra Deus (cf. Eclo 3,16). 
 
4 O pai como bom pastor 
 
Uma das metáforas mais significativas da paternidade e da liderança divina é aquela em que Deus se apresenta como pastor do seu povo. Também Jesus Cristo se identificou como o Bom Pastor (cf. Jo 10,1-17). Somos convidados a pensar na figura do pai como bom pastor dos seus filhos. Recordemos alguns versículos estimulantes e provocantes. 
 
“Os meus pastores não se preocupam com o meu rebanho: ficam cuidando de si mesmos, em vez de cuidarem do meu rebanho” (Ez 34,7): o pai para ser bom pastor deve superar toda e qualquer forma de egoísmo e narcisismo! O cuidado dos filhos deve estar ao centro de todas as suas preocupações.
 
 “Vocês não procuram fortalecer as ovelhas fracas, não dão remédio para as que estão doentes, não curam as que se machucaram...” (Ez 34,4): o pai bom pastor cumpre seu dever de atenção às necessidades dos filhos, evitando ser negligente, omisso e acomodado!
 
 “Dominam com violência e opressão” (Ez 34,4): o pai bom pastor acompanha, convive e educa seus filhos movido pelo afeto, pela bondade, ternura, jamais sendo injusto, violento e opressor dos seus filhos! Assim como o pastor violento perde as ovelhas, o pai agressivo perde a admiração e o afeto dos filhos. 
 
Maus pastores cochilam em suas responsabilidades e o inimigo arrasa o rebanho causando nas ovelhas ferimentos, dor e chaga incurável (cf. Na 3,18-19): o pai bom pastor nunca deve cochilar nos cuidados dos seus; aquele que não leva a sério essa responsabilidade poderá sofrer prejuízo irreparável, colher muito sofrimento e vergonha.  
 
“Eu mesmo vou procurar as minhas ovelhas” (Ez 34,11): o pai bom pastor assume a própria responsabilidade vocacional; é um dever pessoal; evita delegá-la porque seria fuga da própria missão! Essa autoridade natural não pode ser delegada.
 
O Bom Pastor diz: «conheço as minhas ovelhas e as ovelhas me conhecem” (Jo 10,14): o pai bom pastor cultiva uma grande capacidade de relação; paternidade é relação; é na boa qualidade da relação com seus filhos (suas ovelhas) que o pai bom pastor manifesta a fidelidade à sua missão; o conhecimento é consequência da convivência, da presença afetiva constante e educativa. Pais ausentes são frios, não amam e por isso não cumprem a sua missão. 
 
PARA A REFLEXÃO PESSOAL:
 
1 Quais limites ou sinais de crise, você percebe em relação à paternidade atualmente?
 
2 O que significa afirmar que a paternidade é “dever e direito”?
 
3 Evidencie outras atitudes da figura do pai como bom pastor dos seus filhos?
 



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